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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Wolfgang Schäuble (1942-2023) e Jacques Delors (1925-2023)

Ladrões de Bicicletas: De Delors a Schäuble

A morte quis levar Wolfgang Schäuble e Jacques Delors juntos. De seguida. Ontem um - o primeiro -, hoje o outro. Só mesmo a morte os terá unido, aos olhos dos portugueses e porventura da maioria dos europeus.

Schäuble foi "apenas" ministro das finanças do governo alemão de Angela Merkel. Jacques Delors foi "o presidente da Comissão Europeia". Foi-o durante dez anos - entre 1985 e 1995 - e tornou-se na figura central da "construção europeia". Os passos decisivos do que é hoje a Europa foram dados por ele. 

Schäuble foi "apenas" ministro das finanças da maior potência da União. Que, parecendo opor-se-lhe, mais condicionou os passos de Delors. E teve sempre mais poder que o presidente da Comissão Europeia. Que era Durão Barroso. Depois de Delors foi sempre a cair...

De Schäuble, lembramos-nos do que sofremos. E do que sofreram os gregos. Lembramos-nos de Vítor Gaspar, de joelhos, de Maria Luís Albuquerque, deleitada a seu lado, e de Centeno embevecido com o título de "Ronaldo das Finanças". De Delors esquecemos-nos que abriu a gaveta onde meteu a social democracia europeia.

O desgosto mata

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Já pouca gente se lembrará do Sr Schauble, mas dou uma ajuda: era aquele senhor alemão, em cadeira de rodas, que fazia as delícias de Maria Luís Albuqerque que, por sua vez, fazia as delícias de Pedro Passos Coelho. 

Ai aquele ar embevecido com que olhavam uns para os outros... Nem os olhares apaixonados de marido e mulher neste governo lá chegam...

Bom. Mas estava a falar era mesmo do Sr Schauble, o ministro das finanças da Srª Merkel, quando ela era bruxa má. Tão má que até tinha aquele ministro das finanças para assustar os mais pequenos. Pois o Sr Schauble vem agora pedir desculpa, e mostrar arrependimento pelas maldades que fez. E diz-se triste.

É de partir o coração: “Bem… sinto-me triste, porque tive um papel em tudo isso. E penso como podíamos ter feito as coisas de forma diferente“.

Vá, Maria Luís... Vá lá dar um conforto ao senhor. Bem sabemos como o desgosto mata!

Deslumbramento e limitação de danos

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Os jornais e as televisões não se cansam de nos tentar surpreender com os louvores de Schauble a Portugal que, para que não restassem dúvidas acabou, perante as cãmaras, de se voltar a dirigir a Mário Centeno como o "Ronaldo das finanças".

O próprio Presidente Marcelo que, evidentemente, não podia deixar o assunto por comentar vai, sem surpresa, no mesmo sentido. E salienta, tal como o governo, que até os maiores adversários de país, aqueles que mais dificuldades lhe criaram, se converteram à sua doutrina por obra e graça do milagre das finanças portuguesas.

O deslumbramento não permite a ninguém dar conta do que Schauble realmente diz. Do que quer dizer, e do que lhe interessa dizer. E o que diz, com a expressão "Ronaldo das Finanças" pelo meio a lançar charme, é que o sucesso do governo português é a prova provada do sucesso do programa de ajustamento. Que impôs e que defendeu como mais ninguém. Nem o seu "Messi", o nosso Vítor Gaspar de má memória.

Shauble não está a fazer nada que o seu admirador Passos Coelho não tenha já feito. Ambos anunciaram e desejaram o diabo. Como o diabo não veio, que não vá tudo para o diabo... Foram-se os anéis, que fiquem os dedos, ou a teoria da limitação dos danos.

A única diferença é que Schauble ainda está no poder. E se calhar isso dá-lhe um ar bem menos ressabiado.

Depressões e inconformismos

 

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Com a entrada em funções do actual governo Pedro Passos Coelho caiu numa tremenda e profunda depressão. Não foi fácil: entrou em fase de negação, enfiou-se na cama e não mais de lá saiu. Aos poucos foi começando a ficar sozinho, e sabe-se como a solidão aprofunda ainda mais a depressão.

Já lá vai um ano e Passos percebeu que tinha de reagir, que aquilo não era vida. Que, assim, não ia a lado nenhum...

Percebe-se hoje que já começou a sair dessa fase negra. A ponto de - ao que se diz - já ontem à noite, no Conselho Nacional do partido que ainda lidera, ter aberto o peito e desafiado toda a gente que  havia a desafiar: "venham, mas terão de se haver comigo"!

Quem fala assim não só não é gago. Também não está deprimido. Poderá não estar lá muito bem da cabeça, mas deprimido é que não!

É verdade. A coisa já passou a Passos Coelho. A quem não há forma de passar é a Herr Schauble: o homem não se conforma. Nem há quem o possa conformar!

Não vejo grande problema - nem pequeno, confesso - nisso. Que não se conforme, é lá com ele. Eu é que não me conformo com os desmandos desse maníaco-depressivo alemão. Nehum português (pronto, está bem: à excepção do Camilo Lourenço) se deve conformar, e não ficava nada mal ao governo português chamar o embaixador alemão a S. Bento ou às Necessidades. Já é tempo de dizer, alto e bom som, que basta de intromissões. Que se preocupe com aquilo que lhe diz respeito, e que não é pouco preocupante, e que deixe em paz o governo legítimo e democrático de um país parceiro, mas soberano.

 

PS: Depois de publicado este texto dei por este sinal de inconformismo, em que não quis deixar de participar.

Mais um...

 

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Mais um. Alemão, como não podia deixar de ser. E fatalmente comissário europeu... Da energia, sabe-se agora. Não é Schauble - esse não seria mais um. Seria mais uma... Vez, evidentemente. E esse não é comissário, embora mande mais que qualquer um.  Presidente incluído. É ministro. Das finanças, e não está nada preocupado com o Deutsch Bank...

Chama-se Günther Oettinger e ao que se diz veio a Lisboa para falar dos desafios e das oportunidades do mercado europeu digital. Mas não falou em nada disso, se calhar porque não sabe nada disso. O homem sabe é de energia, por que raio o chamaram para falar de digital?

Se calhar também não sabe muito de energia... Às vezes as coisas não correm assim tão bem, e trocam-lhes as pastas. O homem sabe é de resgates: ele é um resgatador. Um súper herói. Que também não sabe nada de bancos!

 

Coisas extraordinárias

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Não deixa de ser extraordinário que, a acreditar na imprensa portuguesa - o que está a ficar cada vez mais difícil - o Sr Schauble se tenha empenhado tanto a convencer os comissários a votar contra as sanções a Portugal e a Espanha, sem ter conseguido convencer o do seu próprio país. É que, no fim, a favor das sanções, apenas restaram o inevitável Dombrovskis (Letónia), um inevitável finlandês (Katainen), uma sueca da nova vaga (Cecilia Malmstrom) e o seu compatriota Gunter Oettinger.

 

 

 

Se ela fosse ministra...

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Nenhuma dúvida: se ela fosse ministra não se falaria em sanções. Enquanto foi ministra, cumprindo tudo, nunca atingiu objectivo nenhum. E nunca se ouviu falar em sanções, antes pelo contrário, falou-se de saída limpa.

Não mudou muita coisa: continuou a ser ela mesma a não atingir os objectivos. Só que já não é ministra...

Parecendo que não, tem toda a razão, a senhora. Era público e notório que o Sr Schauble tinha um fraquinho por ela...

Por que é que estão aqui?*

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Cada vez se percebe melhor que o referendo britânico à sua permanência na União Europeia nunca foi mais que um instrumento de luta política palaciana.

Começou com Cameron, que sempre que estava mais atrapalhado se lembrava dele. Até, se calhar enganado pelas sondagens, fazer dele promessa eleitoral.

Não se sabe que efeito terá tido na esmagadora vitória de Cameron nas eleições de há pouco mais de um ano. Mas, a avaliar pelos resultados do referendo, não custa muito a admitir que não terá sido pouco.

Recolhida a vantagem que pretendia, alcançada a expressiva vitória eleitoral que lhe permitia manter o poder no reino e abafar os opositores internos, Cameron escondeu a mão com que efectuara o arremesso, e passou a porta-estandarte do fica. Do bremain.

No fim, não ganhou nada com isso. Tornou-se mesmo no maior perdedor do referendo, acabando a perder tudo: o partido e o país. A pedra caiu-lhe em cima, e aleijou bem.

Não foi no entanto o único a instrumentalizar o referendo. A maioria dos que deram a cara em favor do abandono, fê-lo também a contar com os dividendos que dai retiraria para o futuro. Provavelmente não o teriam feito se estivessem verdadeiramente convencidos que o resultado seria o que foi.

Hoje, uma semana depois, isso está mais ou menos dissipado. Foi no entanto demasiado evidente nos momentos que se seguiram ao encerramento das urnas, e mesmo depois de divulgados os surpreendentes resultados. Ao ponto de, praticamente de imediato, se começar a falar de um segundo referendo que corrigisse os então inesperados resultados deste.

Irónico, quando no que toca a consultas populares, a história da União Europeia é a de fazer tantas quantas as necessárias para atingir os resultados desejados.

Não menos irónica, e mais irresponsável ainda, é a reacção institucional da União Europeia. A começar na reunião imediata dos seis países fundadores, em Berlim, como se fossem os guardiães do templo. Como se, seis décadas depois, gozassem de prorrogativas especiais… Como que a puxar dos galões, sem repararem que estão ferrugentos, que já não há brilho que de lá saia…

Depois, a lamentável prestação do presidente da comissão europeia no Parlamento Europeu, quando disse aos euro deputados britânicos que era a última vez que aplaudiam, antes de lhes perguntar: “por que é que estão aqui?

Àquela hora da manhã não era plausível que o Sr Juncker estivesse já com os copos… As ususal

E, por fim, a renovação das ameaças de sanções a Portugal e à Espanha. Por fim, não. Porque ainda sobrou tempo ao Sr Schaubler para ter o descaramento de, para voltar a ameaçar Portugal, lançar pela boca fora que está à ser preparado um novo programa de resgate ao país.

Se é desta maneira que o radicalismo cego que se apoderou dos destinos da União Europeia reage à saída de um dos seus maiores membros, a sua segunda maior economia e a quinta maior do mundo, não é preciso muito tempo para que sejam muitos mais os europeus, e não o Sr Juncker, a perguntar-se por que é que estão aqui…  

 

* Da minha crónica de hoje na Cister FM

Indignação

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Nem sei o que mais me choca: se as declarações terroristas de Schauble se a "centena" resposta que mereceu do ministério das finanças. Mas sou bem capaz de ficar mais indignado com a resposta que, de cócoras, o ministério de Centeno deu: "não está em consideração qualquer pedido de ajuda a Portugal".

Já os fundamentalistas do costume, as tropas de Shauble e os orfãos de Vítor Gaspar, não merecem sequer indignação. Talvez desprezo, não muito mais que isso...

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