Hoje é dia de Martin Luther King, um dos apenas três feriados nacionais em que os Estados Unidos celebram uma pessoa. Foi estabelecido em 1983, na era Regan, e celebra-se na terceira segunda-feira de Janeiro.
É com indisfarçável ironia que este 20 de Janeiro acontece à terceira segunda-feira. Que o dia que a América destinou ao seu maior símbolo de paz e harmonia, seja o mesmo em que vai entregar o poder ao mais disruptivo e perturbador dos seus presidentes.
O mundo agradeceria que esta fosse apenas uma segunda temporada de uma série melodramática americana. Trump é capaz de tudo, e seria até capaz de reduzir esta segunda oportunidade a apenas isso. Só que desta vez é diferente. Nesta segunda oportunidade Trump surgiu rodeado de outra gente. Desta vez de gente realmente perigosa, que quis ela própria transformar-se em poder e atrair à sua volta os mais poderosos dos poderosos.
Não. Hoje não é uma segunda temporada que começa. Hoje é o dia em que o mundo começa irreversivelmente a andar para trás. E a ficar muito mais perigoso!
Começa a ficar consensual que entramos na temida segunda vaga da epidemia. Os números, de infecções e de óbitos, mesmo que mais os primeiros, voltaram a disparar e confirmam que o que se está a passar já é diferente do que aconteceu entre o primeiro e o segundo trimestre do ano.
Em Espanha, em França, na Itália, no Reino Unido, na Alemanha ou em Portugal, com maior gravidade, como em Espanha, ou menor, como na Alemanha, o vírus não dá tréguas. É justamente um virologista alemão, cientista de referência e assessor do governo para a covid-19, que adverte que a verdadeira pandemia está agora a chegar.
A isto acresce a chegada da gripe sazonal, aí à porta por força do calendário. Mas acresce sobretudo a realidade nas suas múltiplas dimensões. Não é mais possível responder com a resposta dada há seis meses. Não é económica nem socialmente possível voltar ao confinamento de então. As economias não o suportam. E as pessoas já nem sequer suportam medidas restritivas, como se vê por estes dias em Espanha e em França. Pelo contrário, reclamam mais abertura, Nem é garantido que dispúnhamos de melhores condições de saúde, como em Portugal garantem as entidades oficiais. Antes pelo contrário, provavelmente.
É certo que há hoje maior conhecimento do vírus, e mais algumas certezas médicas. Mas a resposta dos profissionais de saúde, que por todas as latitudes emocionou o mundo, não é uma experiência repetível. E em Portugal, por múltiplas e diversas razões, que vão dos bloqueios nas estruturas organizacionais dos serviços de saúde, à falta de reconhecimento dos profissionais, não o é. De todo!
Quando os registos da epidemia já contam com um milhão de mortos e 32 milhões de infectados, é verdadeiramente dramático nestas condições admitir que a verdadeira pandemia possa estar agora a chegar.
Há uma boa notícia no meio de tudo isto. Nas eleições locais e regionais em Itália, no início da semana, a extrema-direita xenófoba sofreu um forte revés. Dizem os estudiosos da matéria porque, justamente, as pessoas perceberam que é aqui que está a razão para ter medo. E que o que os extremistas agitam são falsos medos com que querem apenas espalhar o ódio.
Poderemos não estar na segunda vaga da epidemia, mas já estamos numa segunda vaga do confinamento. É uma espécie de confinamento 2.0, o que o governo acabou de anunciar, com as medidas que entrarão em vigor a partir do próximo dia 15, já no início da próxima semana.
A ideia que fica é que, não fossem os imperativos económicos e orçamentais, e teríamos o regresso do confinamento puro e duro da primeira versão. Simplesmente o país não aguenta uma segunda vaga de confinamento.
O governo está mesmo assustado, e fica também a ideia que, desta vez, está mais assustado que as pessoas. Que parece que já não querem saber...
Do Conselho de Ministros de hoje irão sair as orientações para o tal passo atrás dado por possível no anúncio do desconfinamento, há cerca de um mês. Os surtos que diariamente surgem por todo o lado, e mais insistentemente em Lisboa, onde as coisas estão longe de estar controladas, não deixam outra alternativa que não seja recuar.
Não será difícil de prever que o governo divulgue medidas de retoque na moldura penal para o crime de desobediência, particularmente em foco na alarmante onda de festas que se tem espalhado pelo país. E será fácil prever a conflitualidade aberta com a Constituição que vai encontrar. É que o "estado de emergência", que tudo permite, já passou.
E aí já não há como voltar atrás. Há, mas implicaria reconhecer a segunda vaga da pandemia, que todos negam. Todos, menos quem sabe: os epidemiologistas, que já o começaram a dizer.
Acompanhe-nos
Pesquisar
Subscrever por e-mail
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.