Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quietinhos em casa!

Resultado de imagem para marcelo rebelo de sousa com máscara sanitária

 

Marcelo entrou logo no início da semana em quarentena - e terá até sido o primeiro português a fazê-lo - e fez disso notícia-espectáculo. Chegou ao ponto de divulgar todas as suas rotinas domésticas, que aos portugueses interessam, ou deveriam interessar, zero. É o seu registo, e percebeu-se claramente que estava a dar o pontapé de saída na sua campanha para a reeleição do próximo ano. 

Entretanto o país entrou nos últimos dias num período de emergência como nunca antes tinha vivido, com a taxa de propagação da doença a crescer em progressão geométrica, e do Presidente da República ... nada. Apenas silêncio. O silêncio ensurdecedor de quem sempre fala sobre tudo, de quem sobre tudo tem sempre tudo a dizer... Mas sem nada para dizer na maior crise do seu mandato!

Acusamos frequentemente os políticos de não primarem pelo exemplo, que caricaturamos pelo "façam o que eu digo, não façam o faço". Admitamos que o sexto sentido político de Marcelo o atirou para aí: não diz nada, para que não façam o que diz, mas o que faz. Quietinhos em casa!

E isso é bem capaz de ser o que de mais importante haja nesta altura para dizer. Só que tem um problema: é muito à frente e os portugueses terão alguma dificuldade em acompanhar!

SILÊNCIO

Por Eduardo Louro

 

 É de ouro! Compra-se e vende-se, como uma mercadoria. Por vezes é ensurdecedor… outras é sepulcral. É aterrador, mas também tranquilidade, paz, e ordem!

Bucólico e assustador. É cúmplice e delator. O silêncio é arma de defesa e de ataque, é direito e dever…

Silêncio é mistério. O mistério do que se não diz, do que fica por dizer e entregue à livre especulação de tudo e de todos. Ao livre e discricionário arbítrio de quem o escuta sem nada conseguir ouvir. Quem cala consente, diz o povo e toda a gente acredita!

Quem cala permite tudo: permite concluir do que não foi dito, aceitar o que se não aceita, validar o que não vale, consentir o que se não consente, concordar com o que se não concorda…

É a porta fechada ao mais insondável de cada um. É o último reduto da intimidade, daquilo que pretendemos preservar só em nós, fechado a todos os outros. É o segredo para sempre guardado, inviolável!

Silêncio é respeito e falta dele. Respeitamo-nos no silêncio e ofendemo-nos no silêncio… Solidarizamo-nos e desprezamo-nos no silêncio! No silêncio tomamos de partilha o pesar e a dor, mas também a mais absoluta das indiferenças…

Faz-se silêncio para ouvir: Silêncio que se vai cantar o fado! E faz-se silêncio para calar, e impedir de ser ouvido.

Silenciam-se vozes para calar consciências. É a liberdade tomada de assalto pelo poder, por qualquer poder. É a verdade inconveniente - ou simplesmente incómoda - calada, silenciada. Onde tudo vale. Não há limites nem fronteiras. Nem pudor em atropelar os mais indiscutíveis valores que marcam a condição humana nos actuais patamares da civilização. Nem a própria vida é uma linha intransponível…

Há o silêncio dos inocentes. E o dos culpados! O dos inocentes é sepulcral. O dos culpados chega a ser ensurdecedor!

Cada um tem a sua relação própria com o silêncio. A forma de o administrar, seja na sua relação consigo próprio seja na sua relação com os outros, constitui o principal eixo da matriz comportamental de cada um. E um dos seus mais notáveis traços de personalidade!

Há quem lide bem e quem lide mal com o silêncio. Quem precise absolutamente dele para se concentrar e quem nele o não consiga fazer. Quem o use para a reflexão e quem o use para a alienação, para fugir do mundo e quantas vezes de si próprio. Da própria vida. Quem nele se deprima e quem nele se revigore. Quem nele se esconda ao longo de toda uma vida, como quem se esconde atrás de uma máscara que lhe permita passar pela vida como quem passa por entre os pingos da chuva …

Há estratégias de silêncio. E não apenas as dos réus, em tribunal. Há quem faça da estratégia de silêncio uma estratégia de orientação, de sobrevivência. Quem estabeleça autênticos pactos de silêncio com a vida. Gente que se não compromete com nada nem com ninguém, indiferente a tudo e a todos. Gente sem causa e sem causas!

Só não são indiferentes a si próprios, com o centro do mundo no seu próprio umbigo.

Há votos de silêncio! Quando em busca do sobrenatural ou do divino se esquecem as pessoas. Quando a aproximação ao divino é o afastamento das pessoas, quando se procuram respostas a perguntas que se não sabem fazer, quando se procuram certezas onde apenas há dúvidas.

E pactos de silêncio, carcereiros da liberdade e anfitriões do subjugo, que fazem do medo forma de vida e das pessoas marionetas. São dispositivos de comando á distância, exactamente como os que as tecnologias nos disponibilizaram e que nos dão, também eles, uma estranha sensação de poder. O poder na ponta do polegar que nos permite silenciar uns para dar voz a outros, afastar o que nos desagrada para procurar o que julgamos querer encontrar.

O silêncio rompe-se, como se rompem umas meias ou umas calças. E quebra-se, como se quebra um prato ou um copo. Romper com o silêncio, contudo, é, e haverá de ser sempre, um acto de coragem. Consistente e, acima de tudo, consequente. Quebrá-lo pode ser apenas um atrevimento. Simplesmente esporádico, quando não inoportuno.

Romper com o silêncio é soltar amarras, rebentar algemas e gritar liberdade. É dizer não e nunca mais. Quebrá-lo é apenas interrompê-lo por breves momentos, para que tudo permaneça exactamente como está.

Há amor no silêncio: “as mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar “ (Leonardo da Vinci). E há silêncio no amor, um silêncio que nem a voz muda de corpos nus quebra!

Como há quem ame em silêncio toda a vida, como se o destino se encarregasse de cruzar amor e sofrimento na esquina de um fado de amores proibidos.

Mas o silêncio também é ódio e raiva. Prazer e dor. E traição!

Não é verdade que, como atribuído a Confúcio, o silêncio seja “um amigo que nunca trai”. Tantas vezes o silêncio trai… O silêncio trai e é traído. Trai-se muitas vezes o silêncio, traindo-se sempre muito mais do que isso!

 

Acompanhe-nos

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Mais sobre mim

foto do autor

Google Analytics