Quando - até porque as eleições estão à porta e já não há quem queira que se lixem - se pensava que o governo iria gerir com mais cuidado o seu cardápio de imbecilidades, eis que Aguiar Branco, o ministro da defesa à exacta medida do governo a que pertence, resolve brindar-nos com mais uma preciosidade. Só faltava esta: Silva Lopes teve a rara felicidade de partilhar o dia da morte com Manoel de Oliveira.
Brilhante! Só mesmo a mente brilhante digna de um ministro deste governo conseguiria tão oportuna, sensata e inteligente ideia...
Se a estupidez pagasse imposto este governo, pela sua própria mão e sem dar cabo da vida a mais ninguém, teria mesmo tirado o país da crise. A sério!
Portugal perdeu hoje dois dos seus melhores. Manoel de Oliveira morreu quando se pensava que já não morria. Silva Lopes morreu quando ainda não se pensava que pudesse morrer.
A edição da passada segunda-feira do Diário Económico apresentava um curioso frente a frente entre dois economistas nacionais de grande relevo de gerações bem diferentes: Silva Lopes, de 78 anos e bem conhecido de todos nós e Ricardo Reis, de 32, ainda desconhecido da generalidade dos portugueses, mas já uma estrela do universo dos economistas, professor e investigador na Universidade de Columbia, e muito activo (directa e indirectamente) no planeta da economia na blogosfera.
O resultado foi uma peça interessante, de quatro páginas cuja leitura recomendo, e que aqui trago exclusivamente por uma declaração de Silva Lopes trazida para o cabeçalho da terceira dessas quatro páginas: “No meu primeiro emprego éramos dez a fazer o trabalho de três”!
É aqui que está, a meu ver, a face mais visível do choque de gerações. E não só de gerações tão distantes como estas duas, claramente de relação avô/neto. Mesmo entre gerações mais próximas!
Provavelmente será por pudor que Silva Lopes situa aquela relação no seu primeiro emprego. Porque eu acho que poderia claramente substituir a expressão “no meu primeiro emprego” por “em toda a minha vida”. Também provavelmente não errarei se disser que esse primeiro emprego foi no Banco de Portugal, onde aquele coeficiente se tem mantido ao longo dos tempos, contra ventos e marés, transformado, tal como o Ministério das Finanças, no autêntico porto seguro de gerações e gerações de quadros, em particular de economistas, para quem a competitividade é um conceito muito recente.
A violência deste choque de gerações não se fica pelas portas outrora abertas a esses desmandos e agora fechadas a sete chaves. Projecta-se ainda pelas pensões de reforma – generosas e frequentemente múltiplas, como bem sabemos – com que a geração de Silva Lopes e outras muito mais recentes hoje se locupletam.
É que, no tempo em que trabalhavam, ainda eram três a trabalhar para dez…. Agora são os mesmos dez a receber sem nenhum a trabalhar para eles!
O drama deste violento confronto de gerações é que para esses ainda vai havendo o que para os novos nunca chega. E, quando a curto prazo deixar de haver, já tiveram oportunidade de acumular o suficiente para o prazo que lhes restar.
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