De volta ao sub-prime
Por Eduardo Louro
Se bem me lembro (saravá grande Vitorino Nemésio!) tudo isto começou com a crise do sub-prime, nos Estados Unidos. Que foi uma coisa que teve a ver com a bolha imobiliária, que levou o mercado a vender casas a quem não as podia comprar, e os mercados financeiros a esfregar as mãos com a oportunidade de enganar muita gente durante muito tempo, através de produtos financeiros cada vez mais complexos que tinham simplesmente na origem esse crédito concedido a quem nunca o poderia pagar. Depois, sabe-se como foi: começou tudo a cair que nem um baralho de cartas, faliu o Lehman Brothers e a coisa espalhou-se pelo mundo mais rapidamente que o ébola…
Vieram as crises das dívidas soberanas, a crise do euro e, para cá, a troika e o Passos. Mas por que é que estarei a ir agora desenterrar isto, perguntará o leitor. Não o vou deixar mais tempo na expectativa…
É porque, por cá, não houve nenhuma crise de sub-prime, nem exactamente bolha imobiliária, apesar de lá ter andado perto. E no entanto, percebemos agora, a banca não deixou de, passados estes anos todos, ficar também encharcada em produtos tóxicos. Só que em vez de terem origem em crédito a maltrapilhas têm-na em crédito aos mais ricos de todos. Em vez de resultarem de imparidades de quem não pode pagar, resultam de imparidades de quem não quer pagar!
Por isso faliu agora o nosso Lehman Brothers, arrastando consigo dezenas de milhares de milhões de euros roubados à economia, muitas empresas e até, sabe-se lá, outros bancos. Mas, como se tudo isto não fosse já suficientemente grave, ainda vai sobrar agora o nosso sub-prime.
Não porque tenhamos tido de regresso qualquer bolha imobiliária – coitada da indústria, que já leva longos anos de agonia. Nem porque a banca tenha desatado a abrir os cordões à bolsa para crédito imobiliário, longe vão esses anos. Apenas e só em resultado da revolução fundamentalista que Passos Coelho determinadamente levou a cabo no país, uma espécie de lavagem de alma, de purificação dos portugueses mergulhados no pecado capital de viverem acima das suas possibilidades, que ficará conhecido como o maior processo de empobrecimento alguma vez imposto a um povo.
A vasta carteira de crédito à habitação da banca portuguesa é hoje um imenso sub-prime. O mercado imobiliário caiu mais de 50% e as casas objecto de crédito valem hoje, em muitas das vezes, menos de metade do valor em crédito. E os devedores, que á data da contratação do crédito tinham rendimentos que garantiam a sua sustentabilidade, estão hoje desempregados ou com cortes de 30 ou 40% no rendimento.
Quer dizer, depois destes anos todos, voltamos ao início de tudo!