Foi em condições muito difíceis que o Benfica chegou a Leiria para disputar esta meia final da Taça da Liga, como é igualmente difícil o cenário que se avizinha para os próximos jogos, no campeonato e na Taça de Portugal. A pandemia, que aterroriza o mundo, e em particular o nosso país, e que no futebol, como, bem, disse ontem o presidente do Sporting, se transformou numa questão de azar, atingiu fortemente toda a equipa, roubando-lhe sete jogadores dos habituais titulares, e espalhando-se por todo o staf técnico.
Tem razão o presidente do Sporting. A pandemia, no futebol nacional, é uma questão de azar. E como o azar de uns é a sorte de outros... A do Porto, por exemplo, que na sexta-feira passada jogou com jogadores livres de covid que, no dia seguinte, estavam infectados. E, por sorte, os que mais precisavam de descansar. Por azar, os sete jogadores do Benfica e os elementos da equipa técnica que participaram nesse jogo, ficaram depois infectados. Por sorte e azar os laboratório que a Liga seleccionou para efectuar os testes é o que é, e dirigido por quem é.
Às dificuldades de uma semana sem treinar, de ter que se apresentar sem sete titulares, com uma defesa toda remendada, com jogadores que nunca tinham jogado juntos, e com uma equipa técnica reduzida ao treinador principal, somavam-se as de defrontar a equipa que melhor futebol tem apresentado em Portugal, a mais mecanizada de todas, e a de processos de jogo mais consolidados.
Tarefa complicada, pois. Para minimizar os problemas da defesa, Jorge Jesus, que prefere Todibo (vá lá perceber-se por quê, até porque esteve o tempo todo a tentar corrigi-lo) a Ferro, que até já jogou muitas vezes com o capitão Jardel, acrescentou-lhe Weigl. E a coisa até parecia funcionar, porque o alemão está a atravessar um bom momento, e a confirmar finalmente que tem condições para ser, no Benfica, o grande jogador que promete ser.
No arranque da partida o Braga quis confirmar as suas próprias qualidades e as dificuldades do Benfica. Entrou a querer mandar no jogo, e nos primeiros (sete) minutos fez parecer que o conseguia. Foi sol de pouca dura, como é próprio da altura. A partir daí o Benfica tomou conta do jogo, e virou o feitiço contra o feiticeiro.
Era o Benfica que jogava e que criava oportunidades. O Braga resignava-se a espreitar o contra-ataque, em que por duas vezes criou situações de perigo para a baliza de Helton Leite. Só que, na sequência de um livre curto, à beira da meia hora, chegou ao golo. Ricardo Horta recebeu a bola sem marcação e cruzou-a para a área e... primeira falha da defesa do Benfica. Falha no posicionamento e falha na marcação. O Braga colocou três jogadores no sítio onde a bola iria cair, sem nenhum defesa a marcá-los. Dois em posição de fora de jogo, e o terceiro, Abel Ruiz, colocado em jogo por Todibo, que ficou para trás.
O Benfica reagiu bem, e o Braga continuou a defender bem, o que não impedia no entanto que as oportunidades de golo continuassem a surgir. A mais clara acabou num excelente remate de Darwin, devolvido pelo poste. As outras iam sendo resolvidas por São Matheus, que em vez de se dedicar aos evangelhos dedicou-se aos milagres. O empate acabaria por surgir já muito perto do final da primeira parte, num penalti (aleluia!) claro, convertido com classe por Pizzi.
Do mal, o menos.
A segunda parte foi de nível bem inferior. Logo de entrada Matheus fez mais um milagre, ao evitar novo golo de Pizzi. E pouco depois, mais do mesmo. Quase a papel químico do primeiro, o Braga voltou a marcar. Canto da esquerda, Helton Leite desfaz o cruzamento com uma palmada e a bola foi parar direitinha aos melhores pés do Braga. Esses, de Ricardo Horta que, sem parecer, é dos melhores entre os melhores jogadores do nosso futebol. E claro, novo erro de marcação e de posicionamento. com os mesmos autores. É novamente Todibo que coloca em jogo David Carmo, adiantado a Jardel, que bem se esforçou, ainda raspou com a cabeça na bola, mas não consegui evitar que o defesa bracarense lhe acertasse em cheio.
Estava-se em cima do primeiro quarto de hora, com muito tempo ainda para que o Benfica reagisse. Jorge jesus deu então início às substituições. Três de uma vez. Uma para trocar o infeliz (ou incompetente, saber jogar a bola é muito curto para um central, confirmou-se hoje) Todibo por Ferro. Outra para tirar Rafa (por Pedrinho) que estava a ser, como é geralmente, o maior desequilibrado. E outra para trocar Seferovic por Everton, deixando Darwin sozinho na frente de ataque. Taarabt, esse, continuou lá. A fazer o que sempre faz. Nada. À espera de ser trocado por Chiquinho, de igual rendimento.
E o muito tempo que faltava foi passando, com a defesa do Braga a chegar perfeitamente para as encomendas.
E assim acabou um jogo em que não ganhou quem jogou mais. Não ganhou quem mais oportunidades de golo criou. Nem talvez tenha ganho quem mais quis ganhar, porque não se viu falta de vontade nos jogadores do Benfica. Nem ganhou quem mais atacou. Ganhou quem melhor defendeu!
Foi a defesa do Braga que ganhou e a do Benfica que perdeu. A defesa bracarense ganhou todas as bolas altas na sua área. A defesa remendada do Benfica não ganhou nenhuma. O guarda-redes do Braga fez quatro ou cinco defesas de golo. O do Benfica fez uma, e já em cima dos noventa minutos.
Por isso se percebe que o título não tem nada a ver com o jogo. Nem com o Benfica ter perdido o hábito de ganhar a Taça da Liga. Tem a ver com o resto!
Valeram-nos os penaltis. O penalti meio caído do céu, mas inequívoco, que deu o empate. E os quatro, em quatro, todos magistralmente convertidos (contra apenas um, em três) que resolveram depois o desempate. Não fora isso e, pelo segundo ano consecutivo, seria o Guimarães, e não o Benfica a marcar presença na final a quatro, no próximo mês, em Leiria.
Valeram os penaltis, porque, no resto, está tudo igual neste futebol do Benfica de Jorge Jesus. Na última das suas tiradas tinha dito que "tanto fazia que defendessem com cinco, como com seis, como com quantos quisessem" quando, na realidade, tanto faz que os adversários joguem com um avançado, com dois ou sem nenhum. Marcam sempre, nem precisam de atacar. Basta-lhes passarem uma vez da linha do meio campo para facilmente colocarem quatro ou cinco jogadores para fazer golo.
Repetiu-se hoje mas uma vez. Na primeira vez que o Vitória passou do meio campo, foram cinco jogadores contra apenas dois do Benfica, e no primeiro remate fez o golo.
Depois foi o costume. O mesmo futebol lento e previsível, com os jogadores a falharem passes uns atrás dos outros, a baterem numa muralha defensiva onde havia sempre três jogadores vimaranenses para um do Benfica.
Porque eles jogavam com mais, e não apenas com os 11 permitidos?
Não, embora parecesse. Apenas porque aquele futebol estereotipado, lento, sem criatividade, e com sucessiva repetição dos mesmos processos, permitia aos adversários estar sempre em maioria onde quer que a bola estivesse.
É verdade que o Benfica, pelo que fez na segunda parte, depois das substituições (João Ferreira? O que é isso mister?) fez por merecer o apuramento. Criou oportunidades de golo suficientes para ganhar claramente o jogo, e esta equipa de Guimarães é fraquinha, é mesmo das mais fracas dos últimos anos.
Mas é assim que vai este futebol do Benfica. E disto não passa!
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