A maré negra continua, o Benfica está já também fora da Taça e, em Janeiro, já não há com que salvar a época.
O sorteio não quis nada com o Benfica nesta edição da Taça de Portugal, a segunda mais importante competição do calendário nacional. Foi obrigado a disputar todos os jogo fora de casa, e o dos quartos de final no Dragão.
Mas, com bolas quentes ou bolas frias, sorteio é sorteio e o Benfica, depois da primeira derrota interna, no inqualificável jogo das meias finais da Taça da Liga com o Braga (que logo a seguir perdeu a final para o Vitória de Guimarães, e hoje foi igualmente eliminado da Taça pelo Fafe, da Liga 3), surgiu no Dragão sem medos, nem complexos.
Deixou isso claro logo que o árbitro Fábio Veríssimo - mais uma provocação do Conselho de Arbitragem, e nem é pela sua história contra o Benfica, é por ser o árbitro que denunciou que as práticas do Porto continuam à maneira antiga, e de daí decorrerem processos ainda em curso - apitou para o início do jogo.
Pelos recentes impedimentos de Enzo e Otamendi, que se juntaram aos antigos, mas não só, o Benfica surgiu com alterações significativas no onze. António Silva recuperou para alinhar ao lado do Tomás Araújo no centro da defesa, Lopes Cabral estreou-se a titular, na ala esquerda, e Prestiani regressou ao onze inicial para a ala direita, daí saindo, respectivamente, Sudakov, para o banco, e Aursnes, para o meio, ao lado de Rios.
Justificadas estas alterações: Sudakov não tem intensidade para para, num jogo destes, jogar na ala, como - erradamente, a meu ver - tem vindo a acontecer. E o jogo com o Braga demonstrou que, depois da lesão de há um ano, Manu não está em condições de jogar no lugar do Enzo.
O Porto não surpreendeu, e foi igual ao que tem sido ao longo da época. Uma equipa intensa, com jogadores que correm sem parar, que disputam cada bola como se fosse a última, usando e abusando do confronto físico. Não sei se é este o futebol de Farioli, não tenho dúvidas é que é este o futebol que percebeu que assenta que nem uma luva no Porto. No tal ADN Porto!
E o Benfica não fugiu aos desafios que esse "futebol" lhe apresentava. Teve esse mérito. Não teve medo, e foi se superiorizando. Aos 10 minutos, logo depois da primeira interrupção da partida (choque de cabeças entre Martim Fernandes e Lopes Cabral) criava a primeira oportunidade clara para marcar, num lance antecedido por um penálti, num corte com a mão do Pablo Rosário dentro da área. Só que, como também faz parte da receita deste Porto, há sempre uma oferta qualquer para, à primeira, marcarem.
Assim foi, mais uma vez. Na primeira vez que chegaram perto da baliza de Trubin, o Tomás Araújo cortou o lance com aparente facilidade. Tinha toda a linha lateral à frente, mas a bola acabou a sair pela final. Canto. Até pareceu que, se fosse de alguma forma possível, a bola acabaria até para ir para a baliza, como já aconteceu. Do canto saiu uma bola rasteira que Rios, ao primeiro poste, à vontade, com tudo para a chutar para a frente, com uma rosca, conseguiu voltar a mandá-la para canto. O segundo consecutivo. Marcado desta vez ao segundo poste, onde Aursnes corta novamente para canto. O terceiro, para a marca de penálti, onde o Bednarek, marcado pelo Barreiro, nem teve que saltar para marcar o golo que tudo decidiu.
O Benfica sentiu o golo, e o Porto conseguiu até, logo a seguir, a sua segunda oportunidade de golo de todo o jogo. Valeu Trubin. Mas reagiu rapidamente, e voltou a assumir o domínio do jogo. Frisson, só na baliza de Diogo Costa que, na fase de maior assédio benfiquista, fora de pequena área, abalroou o António Silva.
Quando se esperava pela repetição, a realização da Sport TV preferiu voltar a mostrar o golo do Porto. É assim!
Entretanto o jogo começava a endurecer. Os jogadores do Porto puxavam pelo confronto físico e activavam o lado quezilento do jogo, onde se sentem como peixe na água. É neste quadro que surge a lesão de Rios, que saiu em maca, à beira do intervalo.
Entrou então Sudakov, para o seu verdadeiro lugar, donde saiu o Barreiro, para se juntar a Aursnes. O Benfica melhorou, ainda. E voltaria a estar perto do golo ainda antes do apito para o intervalo, naquele remate do Barreiro, que o Diogo Costa defendeu com o pé, aflitíssimo, para a frente. Em vez de recarregar para dentro da baliza, Dedic chutou para a bancada.
E assim regressou toda a gente aos balneários, onde Fábio Veríssimo teria certamente a passar em loop na televisão a mão do Pablo Rosário na bola, dentro da sua área, ou ataque do Diogo Costa ao António Silva.
A segunda parte não mudou nada ao jogo. Continuou a dar Benfica, que continuou a somar ataques e remates. Alguns, como os de Tomás Araújo, aos 10 e aos 20 minutos, poderiam ter acabado em golo. A maior, e a derradeira oportunidade que o Benfica teve para marcar, não chegou a ter remate. Corria o minuto 90, e Pavlidis falhou - o remate e o golo - a um metro da baliza.
O Benfica não merecia ter perdido este jogo. Merecia ter passado à meia final da Taça, e ter o privilégio de disputar um jogo em casa. Mas não há vitórias morais. E, se houvesse, nem essas já nos conseguiriam animar.
Não foi um Benfica exuberante, mas foi um Benfica muito competente este que, hoje, no mau relvado do velhinho S. Luís, assegurou a passagem aos quartos de final da Taça. Que, provavelmente - mas também o Sporting, se amanhã for capaz de ultrapassar o Santa Clara, esperaria encontrar o Vitória de Guimarães e, afinal, se lá chegar encontrará em Alvalade o fofinho AVS - terá de disputar no Dragão, com o Porto.
José Mourinho apresentou um onze bastante diferente do que vem sendo a equipa tipo, com Samu - o guarda-redes das taças - na baliza, António Silva de regresso, como Tomás Araújo, também de regresso, mas... à lateral direita. No miolo manteve Rios, mas com a companhia do regressado Manu, titular e até a jogar o tempo todo. Nas alas Prestianni (na direita) e Schjelderup (na esquerda) e, atrás de Ivanovic, Sudakov. Seis novidades - Samu, António Silva, Manu, Prestianni, Schjelderup e Ivanovic - com cinco - Trubin, Dedic, Enzo, Aursnes e Barreiro (lesionado) - habituais titulares de fora.
Quis o diabo que, destes, dois - Aursenes, pouco depois da meia hora, para substituir Sudakov, lesionado e vítima da agressividade maldosa (a mesma que víramos, no passado domingo, em Moreira de Cónegos) de alguns jogadores do Farense, e Trubin, ao intervalo, porque também o Samu se lesionou - tivessem de jogar a maior parte do tempo. Em contrapartida - ao diabo, claro -, Enzo, que nos planos de Mourinho teria de entrar quando Manu já não pudesse mais, pôde descansar.
Como comecei por dizer, sem ser brilhante, o Benfica foi competente. Confirmou que está consistente e competente, e isso não é pouco.
Desde cedo - o Farense empertigou-se nos dois minutos iniciais mas, se nem sequer foi sol, nem poderia ter sido de "pouca dura" - se assenhorou do jogo, e nunca permitiu que ele resvalasse para zonas de desconforto. O golo nem sequer tardou muito. À passagem do minuto 10 Rios marcou, num lance - livre lateral que Sudakov cobrou para o segundo poste - de laboratório.
O golo foi uma espécie de visto para a tranquilidade e para a paciência na posse e na gestão da bola, e esses os factores que diferenciaram o futebol do Benfica, permitindo-lhe diversas ocasiões para novos e mais golos. Sucessivamente desperdiçadas.
A mais clara, um quarto de hora depois, no penálti que Otamendi falhou. É o segundo consecutivo, nesta competição, pelo que será estranho se continuar a ser a alternativa a Pavlidis para a cobrança das grandes penalidades. Mas também Prestianni e Schjelderup dispuseram de excelentes oportunidades para aumentar a vantagem. Ivanovic ainda chegou a marcar, mas o golo foi (bem) anulado por fora de jogo.
Da primeira parte, duas más notícias: o resultado, escasso para o que a equipa jogara, e a deixar em aberto um jogo que já deveria estar fechado; e a lesão de Sudakov. Que poderá - não sei, nem faço ideia - não ser igual à de Barreiro, mas resultou de uma entrada tirada a papel químico. Parece que abriu em Portugal a caça aos jogadores do Benfica.
A segunda parte arrancou com uma falta grosseira sobre Ivanovic, à entrada da área e já isolado em frente ao guarda-redes contrário. O árbitro, a encomenda Hélder Malheiro, assinalou falta fora da área (bem) e puniu o defesa do Farense, que tinha acabado de entrar, com o cartão amarelo. O VAR entendeu, porque viu bem que o Ivanovic estava isolado e perante uma clara oportunidade para marcar, que o cartão a aplicar seria o vermelho. A encomenda do apito foi ver o lance, mas ... claro: manteve a sua!
Seria de novo à passagem do minuto 10 que chegaria o golo. O segundo, do 0-2 que vai sendo a matriz dos resultados da Taça. Obra de Ivanovic que, depois de um passe bem medido para o remate fortíssimo de Dahl, que o guarda-redes (em grande defesa) sacudiu, foi finalizar na pequena área, numa recarga oportuna.
Um golo importante para decidir o resultado. Mas mais importante ainda para o ponta de lança croata, a afirmar-se e a confirmar que conta. Mesmo!
Daí até ao fim foi mais do mesmo, com o Benfica a controlar o jogo em absoluto. E com mais uma estreia na equipa principal: Daniel Banjaqui, o lateral direito desta fornada de campeões europeus e mundiais de sub-17 por Portugal.
No último lance, no último dos dois cantos consecutivos que logrou, o Farense marcou, com a encomenda a validar de imediato o golo. Valeu o VAR, a chamá-lo para ver o empurrão ao António Silva que permitiu o cabeceamento para o golo. Desta vez Hélder Malheiro não teve como manter a decisão.
Dérbi, dos antigos. Com o velhinho e histórico Atlético Club de Portugal, da castiça Alcântara. Não aconteceu no velhinho Estádio da Tapadinha - coisas da televisão, acredito - mas no bonito, e também histórico, e altaneiro Restelo.
Um jogo carregado de História, este da quarta eliminatória da Taça de Portugal. Não será ela - a História - a justificar as dificuldades que o Benfica encontrou. São outras coisas, também já quase históricas.
José Mourinho experimentou um novo modelo, e apresentou-se a jogo com três centrais. Uma novidade ...
Para um jogo de Taça, a quatro dias do de Amesterdão, para a Champions, onde se vai bater com o parceiro de tabela no último lugar - Ajax e Benfica, dois históricos, são as únicas equipas sem qualquer ponto na classificação - com um adversário da Liga 3, esperavam-se mais caras novas na equipa. Mas não. Retirando o Samuel Soares, o guarda-redes da Taça, novidade mesmo apenas o Ricardo Rego, lançado para a ala esquerda. O outro Rego, o João, já é conhecido. Todos os outros oito jogadores fazem parte da elite do plantel.
À medida que o tempo decorria percebia-se que, se era por ali que pretendia resolver as coisas - as dificuldades estruturais do jogo do Benfica -, bem podia limpar as mãos à parede. Se era pelo sistema, podia começar a pensar noutro. O que fosse.
Mourinho percebeu isso. E bem mais que isso.
Mourinho é isto. Pode não conseguir pôr os jogadores a jogar à bola, e pode - até - ver ruir pela base todo o seu edifício: os jogadores que não acreditam nele pioram, ficam piores que quando chegaram; os que acreditam atingem níveis que nunca sonharam. Nessa medida, o que parece, é que não há quem acredite.
Mas vê o mesmo jogo que o adepto vê. E não lhes atira areia para os olhos!
Os três centrais não conseguiam estabelecer ligação com Barrenechea, emperrando logo ali todo o jogo do Benfica. Dedic ainda conseguia, aqui e ali, arrancar boas combinações com Aursnes sobre a direita. Na ala contrária, Rodrigo Rêgo ainda conseguia aparecer, a espaços, a dar alguma profundidade ao futebol do Benfica. No meio ...era um verdadeiro desastre. E o Atlético recuperava bolas atrás de bolas, numas vezes só para a afastar, noutras, para se desdobrar o ataque, e lançar frequentemente o pânico na defesa do Benfica.
Foi assim durante toda a primeira parte.
Quando, ao intervalo, faz quatro substituições (saíram Tomás Araújo, João Rego, Barrenechea e Ivanovic, e entraram Samuel Dahl, Leandro Barreiro, Richard Ríos e Schjelderup) não muda apenas o sistema. Muda jogadores, quatro Porque não podia mudar mais.
Foi então um novo jogo. Não porque mudou o sistema, porque mudou a atitude dos jogadores. O Benfica não passou a jogar um grande futebol, não passou para uma exibição que enchesse os olhos e os corações dos benfiquistas. Nada disso, mas assumiu verdadeiramente o domínio e o controlo do jogo. E isso foi suficiente para ganhar, e merecer ganhar, o jogo.
Ainda assim com dois golos de bola parada. O primeiro, de canto, já bem perto da entrada para o último quarto de hora seria, finalmente, o primeiro de Richard Ríos no Benfica. O segundo, logo a seguir, de penálti, por Pavlidis. Quase defendido pelo guarda-redes do Atlético, Rodrigo Dias. Que no último minuto, já depois de o avançado grego ter sido substituído por Henrique Araújo, defenderia mesmo um penálti, esse cobrado por Otamendi.
Pois ... não está nada fácil. E hoje ficamos finalmente a saber que Mourinho não conta com este plantel. E que tem razões para isso, caibam as culpas a quem couberem!
Não foi de oito e oitenta a exibição do Benfica, esta noite, em Chaves onde, no regresso das selecções, se deslocou para este primeiro jogo da Taça, nesta época. Na última foi fatídica, como bem lembrou Mourinho no pré-match, a lembrar também que faz mais pelo Benfica numa única frase, em um ou dois segundos, que a Direcção de Comunicação em quatro anos.
Mas foi aos oito, e aos oitenta que, com dois fantásticos golos, Pavlidis fez o resultado de um jogo em que o Benfica esteve muitas vezes próximo do oito, sem nunca chegar ao oitenta. Nem lá perto!
José Mourinho não mexeu muito na equipa base, no onze que vem regularmente apresentando. O Samuel apareceu na baliza, dentro da normalidade da troca de guarda-redes na Taça. Ainda não tinha sido primeiro opção do treinador, ao contrário do que sucedera com Lage, e era esta a oportunidade. Tomás Araújo estreou-se no centro da defesa, na vez - que não no lugar, aí jogou o António Silva - de Otamendi, poupado. No meio campo a poupança foi Rios, entrando João Rego na sua vez. Também não para o seu lugar, esse foi ocupado por Aursenes, mas jogar na ala esquerda, onde ainda não o tínhamos visto.
Se descontarmos o específico lugar do guarda-redes, na verdade apenas duas mudanças nos nomes. E novidade, mesmo, apenas uma - o jovem João Rego.
Se era um sinal de respeito pelo adversário, que de resto Mourinho não se cansara de elogiar, foi dado bem a tempo. Mas também bem cedo desrespeitado, ainda antes de se chegar a meio da primeira parte. É que com o golo - e que golo! - ao minuto 8, no primeiro remate do jogo, e mais as duas ou três claras oportunidades que se lhe seguiram nos 10 minutos seguintes, os jogadores do Benfica começaram a desligar-se do jogo. Não sei se foi falta de respeito, ou se simplesmente pensaram que Mourinho era um exagerado, e que aquilo era fácil. Fosse pelo que fosse a equipa desligou-se, perdeu a pouca intensidade que tinha, voltou à sua dependência daquele futebol para trás e para o lado, e em pouco tempo deixou de mandar no jogo.
O Chaves crescia, e acreditava. Samuel, na baliza, dava mostras de alguma perturbação e chegou a temer-se que a equipa se começasse a afundar. O intervalo veio então em boa hora. Não que a equipa tivesse estado à beira do KO, mas andava perto do 8, e começava a rebobinar-se a fita do jogo com o Gil Vicente.
O intervalo foi bom conselheiro, e o Benfica regressou para a segunda parte, já com Schjelderup no lugar do "amarelado" João Rego, mais perto dos primeiros minutos do jogo. Longe do 80, mas também do oito. Ao Chaves foi valendo o guarda-redes sérvio, Gudzulic que, à defesa da primeira parte que negara o golo a Lukebakio acrescentou, na segunda, mais três ou quatro que evitaram outros tantos golos. Foi valendo a intensidade, e até os excessos, dos seus jogadores. E foi valendo um árbitro - David Silva, do Porto, como não pode deixar de ser, esse velho conhecido destas coisas da Taça - que sempre pactuou com esses excessos, e que, sem VAR, deixou dois penáltis por assinalar. O primeiro quando uma mão de um defesa da equipa flaviense desviou a bola de Aursenes; o segundo quando António Silva, numa disputa de bola na área adversária, foi pisado ali mesmo à frente dos olhos do tal David Silva.
Os minutos iam passando, o resultado tangencial mantinha-se, o Benfica corria o risco de ficar à mercê de um qualquer incidente de jogo. Como poderia ter acontecido naquele contra-ataque que, ao não assinalar o penálti, o árbitro permitiu, com toda a gente a reclamar o penálti, e António Silva caído na área contrária a torcer-se com dores. Mas o pior período do Benfica tinha já ficado para trás.
E lá se chegou ao oitenta. Ao minuto em que Pavlidis - que sairia logo a seguir para dar lugar a Ivanovic - rematou o resultado, voltando a bater o guarda-redes sérvio que parecia imbatível. Em fim de festa ainda houve tempo para João Veloso substituir Sudakov, e para a estreia absoluta de Ivan Lima (a substituir Aursenes), um miúdo de quem muito se espera. E o sexto miúdo da formação com a camisola do Benfica vestida que passou pelo relvado de Chaves. Houve mais um: chama-se Henrique Pereira, mas jogou pelo Chaves, emprestado pelo Santa Clara.
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