Desde que Antonoaldo Neves assumiu as rédeas da gestão, a TAP passou a acumular prejuízos ao ritmo dos seus piores tempos. Nos primeiros nove meses do ano somam já 111 milhões de euros, em cima dos 118 milhões do ano passado. Em dois anos os prejuízos subirão bem para lá dos 250 milhões de euros.
Mas, ouvindo o compatriota e sucessor de Fernando Pinto, está tudo bem. Não há problema de qualquer espécie, até porque, como não se cansa de repetir, quem sabe daquilo é ele. É ele o único especialista naquela ciência oculta que é o negócio da aviação, e tem sempre explicação para tudo.
E explica que o prejuízo deste ano se deve a "variações cambiais sem impacto na tesouraria" - deve ser por isso, por não terem impacto na tesouraria, que já aí está o segundo empréstimo obrigacionista do ano, no valor de 300 milhões de euros, depois dos 400 milhões que recolheu em idêntica operação no primeiro semestre -, como os prejuízos do ano anterior haviam sido explicados por situações não recorrentes. Ou excepcionais, que na TAP mais costumam ser regra, como indemnizações por atrasos, por exemplo.
Valha que, mesmo com rating de lixo - a TAP só não tem o pior rating das companhias de aviação porque o genial David Neelmam (outro charlatão que este país transforma em génio) tem mais três empresas no sector e todas em pior estado - o Sr Antonoaldo ainda vai encontrando quem lhe empreste dinheiro para financiar os resultados da sua brilhante gestão.
A aproximação a zonas de forte turbulência está a fazer-se a grande velocidada. E, como no Titanic, a orquestra toca...
Rui Moreira, o presidente da Câmara Municipal do Porto, regressou ao futeboleiro tempo dos que queriam ver Lisboa a arder. Eleito - muito provavelmente - à custa da notoriedade das palavras na bola, no polo oposto ao seu antecessor, e sem oportunidade para abrir as portas e as varandas da câmara aos festejos do seu clube, para por elas entrar o ar que lhe segurará os votos, à falta de outras asas, Rui Moreira agarra-se às da TAP. E pelo caminho vai distribuindo uns pontapés por Lisboa...
Cavaco deixou finalmente a rã descansada e indigitou António Costa que, sem resposta do tempo ao tempo que o tempo tem, se entretivera a fazer um governo. É por isso que já há ministros, e que está agora praticamente garantido que, dois meses depois das eleições, o país terá um governo.
No tempo que Cavaco quis. Porque a data das eleições foi a que Cavaco quis que fosse. E porque, depois, mesmo com todos os cenários bem definidos na cabeça, e mesmo com um recatado 5 de Outubro para reflectir sobre o que tinha claro, em vez de agir o presidente preferiu fazer de conta que agia, consumindo 50 dias na árdua e espinhosa missão de encanar a perna à rã.
Coisa que, como se sabe, permitiu ao governo relâmpago de Passos e Portas acabar algumas coisas que tinha deixado começadas como, por exemplo, assinar o acordo de privatização da TAP. Para, como só alguns sabiam e é agora público, dar aos bancos a garantia do Estado pelo pagamento da dívida da companhia que vendeu. Por 10 milhões de euros!
Exactamente assim: foi preciso que o governo de Passos e Portas se aguentasse o tempo necessário para consumar a venda da TAP, por 10 milhões de euros, a um grupo fantoche (fantoche porque tudo é ao contrário do que parece, a começar numa minoria de capital que detém 95% do poder), assumindo a responsabilidade por 770 milhões de euros de dívida!
Mais do que Pires de Lima sempre acreditou, eu acredito que a greve dos pilotos da TAP seja ainda desconvocada. Eles só não queriam por nada perder a surpresa que o Pingo Doce sempre reserva para este dia... Agora que já perceberam que desta vez Soares dos Santos se fica pela compra do Oceanário, vão voltar ao trabalho. Vão ver que sim...
O ministro, o agora truculento Pires de Lima, entende que os trabalhadores da TAP se dividem entre os que pertencem ao sindicatos que chegaram a acordo com o governo e os outros. E que os outros podem ser despedidos, ao contrário dos sindicalizados nos tais sindicatos, a quem o governo garante protecção enquanto o Estado se mantiver no capital da companhia.
O Secretário de Estado, Sérgio Monteiro, já um ex-libris deste governo, não se limitou a acenar que sim com a cabeça. Repetiu a ideia até à exaustão, ia já alta a noite e lá continuava ele com toda a convicção a pregá-la. A difundi-la ao mundo... Nem ele nem o ministro tinham ainda reparado que não podia ser assim... Que estas coisas da Democracia e do Estado de Direito, por muito que lhes custe, não permitem ao governo tratar diferenciadamente os cidadãos, premiando os que o apoiam e penalizando os outros...
Terá já sido durante o sono que Pires de Lima acordou para a realidade, a tempo de pedir ao primeiro-ministro que, assim que chegasse ao hemiciclo para o debate quinzenal, desmentisse aquilo da melhor forma que entendesse. Isto a acreditar em Passos Coelho, que não é coisa que ele mereça. Se não o fizermos lá teremos que admitir que Pires de Lima e Sérgio Monteiro ainda agora estão convencidos que têm um país só para eles, e que Passos é que lá teve que lhes tirar o tapete para, mais uma vez, tentar minimizar prejuízos...