Ursula von der Leyen assinou ontem, com Trump, o humilhante acordo comercial EUA-UE, em total cedência e submisão aos caprichos do extravagante inquilino da Casa Branca.
Trump impôs tarifas de 15% sobre as importações da Europa, e de 0% para as exportações americanas para a UE. Impôs a Ursula von der Leyen que garantisse a compra, em largas centenas de milhões de euros, de material militar, em linha com a imposição dos 5% do PIB para os orçamentos de defesa, a compra de produtos energéticos no valor de 750 mil milhões de dólares, e o aumento do investimento europeu nos Estados Unidos em 600 mil milhões de dólares.
No fim, a presidente da Comissão Europeia veio dizer que "foi difícil, mas, no final, fomos bem-sucedidos". António Costa, presidente do Conselho Europeu, que "é um acordo que prioriza a cooperação, protege os interesses fundamentais da União Europeia, e oferece às empresas a certeza de que precisam". Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, que "é um acordo que permite evitar uma escalada desnecessária nas relações comerciais transatlânticas". E Victor Órban, simplesmente que "Donald Trump comeu Von der Leyen ao pequeno almoço".
É também isto que faz a diferença que engorda o populismo. Um "establishment" envolvido em tretas, a mandar areia para os olhos, serve-se de "pequeno almoço" ao populismo.
Imaginemos a empresa X, com acções cotadas a 500 USD. Imaginemos um presidente de um Estado a lançar uma ordem de compra de 50 milhões de acções da empresa X a 300 USD. Imaginemos que, no dia seguinte, o mesmo presidente anuncia tarifas de 50% sobre o negócio da empresa X, e as acções caem para 290 USD.
Imaginemos que, no outro dia a seguir, o presidente anuncia o adiamento das tarifas. E dá ordem de venda das acções da empresa X a 490 USD, que voltam para a cotação dos mesmos 500 USD.
Façamos as contas (dou uma ajuda: 50 milhõesX190 USD=USD 950 milhões) e chamemos apenas maluco ao presidente.
"Inside trading", é crime. Isto é capaz de não ser!
Será inevitavelmente pelas tarifas que se iniciará o princípio do fim de Trump. A todas as inevitáveis consequências económicas, políticas e sociais da escalada tarifária de Trump - a inflação, a perda de competitividade, e em última análise a recessão (económicas), vão provocar descontentamento social, com forte incidência nas classes mais desfavorecidas (sociais), e erosão política da sua base eleitoral de apoio (políticas) - juntam-se os choques de interesses, e os combates abertos no interior da própria equipa de Trump.
Para já, está aberto o combate entre Elon Musk, o até agora homem forte da máquina trumpista, uma espécie de sala de máquinas da Casa Branca, e Peter Navarro, o ideólogo e mentor da tarifação.
E chegou o dia. Pontualmente - 2 de Abril - a mostrar que não é uma simples trumpice, mas algo bem planeado e sistematizado. Uma ideia, estúpida, mas amadurecida.
Dantes, "era a economia, estúpido". Agora, "é a ideologia, estúpido"!
Com a grelha das apregoadas taxas alfandegárias na mão, e o espectáculo bem encenado, Trump chamou-lhe o dia da libertação. A corte aplaudiu, entusiasmada. Os mercados, esses não correm atrás de canas de foguetes. E Wall Street caiu a pique.
O choque de Trump com a realidade é agora inevitável. E vai ser brutal!