Por trás da forma como se manifestam os taxistas, com mais ou menos arruaça, com mais ou menos - geralmente com mais - desacatos, com mais ou menos perturbação da ordem pública, ou mesmo com a subversão das formas de luta - como ontem aconteceu ao transformar uma marcha lenta num bloqueio - não há apenas uma desproporção de regulação difícil de perceber. E de aceitar.
Mesmo que este confronto se limite a opor dois tipos de agentes que basicamente desempenham a mesma actividade económica, mas a quem o Estado regulador coloca exigências completamente diferentes, ao ponto de, a uns, exigir tudo e, aos outros, não exigir nada, percebe-se o que está por trás.
Percebe-se a marcha do neo-liberalismo global que leva á frente tudo o que seja regulação. Que esmaga à sua passagem tudo o que encontre e que, de alguma forma, crie obstáculos ao resplandecente laissez fair laisser passer da globalização.
A uberização das sociedades é isto que hoje se vê embrulhado nestas plataformas de mobilidade, que no fundo coloca aos cidadãos um trade off que cheira a chantagem: toma lá vantagens e facilidades inidividuais enquanto cliente, e dá cá, enquanto cidadão, todos os direitos colectivos que possam constituir os nossos deveres e obrigações. A uberização é a precarização das relações sociais, é um mundo sem direitos laborais nem obrigações contratuais. Sem regularização. E sem Estado que não seja em serviço próprio!
O que não quer dizer que o regulado mundo dos taxis esteja cheio de virtudes. Nada disso...
Sabe-se como nós, portugueses, somos muito dados ao messianismo, criamos mesmo uma versão portuguesa - o sebastianismo. Esperamos por D. Sebastião durante séculos, mas em vez do jovem rei, que deveria chegar numa manhã de nevoeiro cheio de pó do deserto, chegou-nos um menos jovem, desempoeirado e fresco que nem uma alface do interior da Beira. Por cá reinou durante 50 anos, transformando o país numa remota aldeia rural afastada do mundo e do futuro, onde nos manteve em cativeiro feitos prisioneiros da ignorância. Partiu, por obra e graça de uma cadeira que também se partiu, mas deixou marcas que não se apagam. O país saltou os muros da aldeia, abriu-se ao mundo e deixou entrar o futuro... Mas os prisioneiros deixaram-se ficar, fiéis à ignorância. Conhece-se hoje o fenómeno, chamam-lhe síndroma de Estocolmo!
E como orfãos procuraram novos Messias. Sem grande critério, sem grande exigência. Tudo tem servido... O José Gomes Ferreira, com programa de governo e tudo. E, claro, o Medina Carreira, otaxistaa quem bastava uma hora de televisão para mudar o país...
Que depois de centenas de horas, em todas as estações e horários, desistiu. Não da Televisão, que paga bem, mas de mudar o país. Isso deixou agora para Pinto da Costa!
Falta-lhe sentido de oportunidade, esta não será a melhor altura para entregar a Pinto da Costa o que quer que seja. Mas sabe-se que o país sempre teve problemas de pontualidade, e nem por isso deixou de chegar aqui, a quase nove séculos de vida. Um taxista experimentado tem sempre por onde sair...
Há muito que em Portugal muitos se deixaram seduzir pela conversa de taxista. A populi gosta da conversa, dá-lhes ouvidos e com isso mercado. Por isso, aumenta cada vez mais o número de taxistas em Portugal, entendidos não como profissionais do volante mas como profissionais de um certo discurso populista e balofo.
Medina Carreira terá sido dos primeiros profissionais encartados. Começou, se bem se lembram, há já muitos anos, por reclamar uma hora de antena televisiva. Dizia então que, dessem-lhe uma hora de televisão, e ele mudaria o país. Deram-lhe centenas de horas de televisão a solo, ora em plano inclinado ora olhos nos olhos, e mais umas largas dezenas em fóruns e debates para onde era catapultado como grande especialista em coisa nenhuma, mas o país ficou na mesma: cada vez pior, como sempre.
Não sei se é por isso que lhe continuam a dar mais e mais horas de televisão, á espera que realmente acabe por mudar o país. Desconfio que não, desconfio que já toda a gente percebeu que ele não muda coisa nenhuma. Perceberam é que aquilo tem mercado, como já bem sabíamos!
Ontem regressou à antena da TIVI 24 - depois de férias, na companhia da mesma da sparring partner, bem treinada para estes números -para, mãos firmes no volante, e olhos ora esbugalhados no rectrovisar ora revirados para o banco de trás, a acompanhar o movimento contorcionista do dorso à procura de cumplicidade no acenar de cabeça do cliente, se atirar - também ele - ao Tribunal Constitucional. "Para se cumprir o que os juízes querem temos que sair do euro”- sentenciou, sem deixar de explicar - à taxista, evidentemente - que “uma boa forma de satisfazer o Tribunal Constitucional era sair do euro”.
O taxista-mor do reino no seu melhor. Pedro Passos Coelho, que nada tem contra a Constituição, e que até acha que não é preciso revê-la, ainda não se tinha lembrado desta...
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