O governo, no seu programa habitação com que abriu a campanha eleitoral para as (bem) próximas legislativas antecipadas, insiste que o problema se resolve pelo lado da oferta. Constroem-se mais casas, os preços baixam, e fica tudo resolvido.
A par da construção de mais casas, constroem-se as obras que ainda há pouco eram faraónicas, mas são agora inadiáveis.
Sabemos quem é que trabalha na construção, e imaginamos as centenas de milhares de imigrantes necessários. Se não há casas, e precisamos que venham para as construir, das duas, uma: ou criamos um ciclo vicioso (não se fazem casas porque não há casas para quem as construa); ou contamos replicar as condições em que vive grande parte dos que já cá estão.
Entre as duas, que venha o diabo e escolha. Mas convém que, quando vier, e escolher, se lembre que multiplicar "Odemiras" à escala das centenas de milhares de imigrantes é capaz ser qualquer coisa tão perigosa como o rebentamento de uma central nuclear.
Sabíamos que pôr fim á aventura do TGV, que não chegou a sair do papel nem da cabeça de alguns iluminados, comportaria alguns custos. Que seria grande a probabilidade de choverem pedidos de indeminização... O que se não imaginaria é que tinham sido gastos 153 milhões de euros... E ainda sem indeminização nenhuma!
Numa pirueta com muitas voltas, truques e nuances o governo ressuscita o TGV, que matara e enterrara. E recupera um dos mais mortais pecados do governo anterior.
As obras … sempre as obras... Não há governo que consiga viver sem elas. Agarram-se a elas como lapas!
Um destes dias estaremos a ouvir falar em aeroporto!
Claro que para não ficar tão mal na fotografia nesta pirueta o governo, e em particular o ministro das finanças, precisou de umas maquilhagens. O TGV não é bem o outro TGV. Mas é um TGV. Não tem nada a ver com o outro, nem os fundos comunitários são os mesmos. Mas é o TGV!
Ah! Pois claro: o país já não está em crise. Graças à credibilidade que este governo recuperou para o país a crise já lá vai… Já podemos por isso voltar ao TGV!
Os Pedros Silvas Pereiras, Josés Lelos e companhia podem estar descansados. Ou talvez frustrados. António José Seguro pode descansar (ou talvez não!): já ninguém lhe exige mais que unifique o partido. José Sócrates está vingado. Está reabilitado e pode regressar em ombros!
Dizia-se que o Ministro da Economia andava desaparecido. E ouvia-se responder que estava a trabalhar. A trabalhar muito, sem abandonar o ministério, à procura de soluções para a nossa pobre economia, presume-se.
Entretanto, por necessidade ou por disponibilidade – vá lá saber-se –, o ministro apareceu. Como apareceu com programas e projectos para tanta coisa podemos concluir que aquele recolhimento deu os seus frutos, e que apareceu agora para os comunicar.
Tenho algumas dúvidas que assim tenha sido. Não é por nada, é apenas porque ele apareceu a dizer o que todos os seus antecessores disseram. E como é fácil de ver, para descobrir o que os outros já tinham descoberto, não era preciso tanto recolhimento. E depois, logo a seguir, percebemos que tanto recolhimento afastou-o da realidade. Esqueceu-se que não há dinheiro!
Mas, como os seus antecessores, veio anunciar dinheiro e mais dinheiro para cima dos problemas. São 100 milhões para um programa para desempregados há mais de seis meses, são apoios à internacionalização das empresas e são alterações ao capital de risco público para financiar isto tudo. E são duas linhas de velocidade alta para levar daqui os nossos produtos, de comboio, depressa e bem. Quantos milhões? Não se sabe, mas talvez os mesmos do TGV, ou por aí perto…
Eu bem desconfiava que naquela conversa de Madrid, quando ele disse que a decisão sobre o TGV seria anunciada em Setembro, havia gato escondido com rabo de fora. Os dinheiros de Bruxelas vêm à mesma, seja para TGV ou para outra coisa. Desde que meta carris, e os comboios que lá têm para nos vender, o dinheiro vem à mesma. E a parte que nos toca logo se vê. Até porque havia muitas indemnizações para pagar…
E anunciou um grande investimento de uma das grandes multinacionais. Mas nada mais disse, é segredo. E há afinal muita gente interessada em investir em Portugal… Já não vêm é a tempo de nos ajudar a resistir ao agravamento da depressão no próximo ano!
Afinal o TGV – o famoso TGV Lisboa Madrid, obsessão antiga – ainda mexe ou será apenas um detalhe do fascínio deste governo pelos adiamentos?
Como o governo adia tudo, porque tudo continua por estudar, acredito que quando o Álvaro diz ao governo de Madrid que em Setembro lhe dará novidades, não queira dizer que o governo não saiba muito bem que não se pode meter em aventuras. Quem disse do TGV o que Maomé não diria do toucinho não pode, agora, dizer estas coisas. Nem mesmo em Madrid!
Em gestão ou em pleno exercício legítimo do poder, este governo não muda na sua imensa capacidade para manter, imperturbavelmente, um discurso de costas viradas para a realidade e para o mais elementar bom senso. É o rumo de Sócrates: há muito traçado e do qual ninguém se afasta um milímetro que seja!
Hoje, enquanto Sócrates continuava a sua nobre tarefa de sacralização do PEC 4 – já a antecipar um dos seus cavalos de batalha da campanha, agora na variante da sua comparação com o que será o produto final da troika, e a adornar a sua tese conspirativa (tirou da cartola que o PSD tinha outras maneiras de provocar eleições, sem prejudicar o país) – o seu ministro mais que tudo, Silva Pereira, falava-nos de Teixeira dos Santos. Para dizer que o ministro menos que tudo está integralmente dedicado às negociações com a troika!
Isso mesmo: o ministro que Sócrates publicamente indicou como o interlocutor do governo junto da troika, o chefe mor do governo nestas negociações - na primeira afronta pública de Sócrates ao seu ministro das finanças (a segunda seria o seu afastamento das listas) - estava agora a dizer, com a maior e habitual desfaçatez, que ninguém sabe do ministro das finanças porque ele está fechado com a troika e sem tempo de sequer aparecer!
Vale a pena citá-lo: «O ministro das Finanças está integralmente dedicado, trabalhando desde muito cedo até muito tarde, para que este processo tenha um desenlace compatível com aquele que melhor serve os interesses do país», E vale a pena ainda referir que, quando os jornalistas lhe perguntaram pelo ministro das finanças, achou a pergunta “extraordinária”. Despropositada, acrescento eu! Extraordinária é no entanto a sua resposta, e volto a citá-lo: «Os portugueses sabem perfeitamente o que está a fazer o ministro das Finanças. Está a negociar o processo de ajuda externa; está a trabalhar intensamente no Ministério das Finanças com a troika europeia para defender Portugal neste processo de negociação internacional».
É fantástico! Teixeira dos Santos agora até passa por escriturário - vá lá, contabilista - de Pedro Silva Pereira!
Tão fantástico quanto o impagável (bom, com mais uma PPP talvez se consiga pagar! Lá bem mais para a frente!) ministro das Obras Públicas, António Mendonça, vir também hoje garantir que aguarda o visto do Tribunal de Contas para o TGV!
Caramba, não haverá ninguém que abane o homem?
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