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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

FUTEBOLÊS #90 GESTO TÉCNICO

Por Eduardo Louro

  

Gesto técnico é uma das principais expressões do futebolês. Tem tudo o que faz do futebolês uma subcultura com expressão própria!

É pretensiosa, mesmo a roçar o pedante, e é redonda, completamente abaulada! Porque poderia muito bem ser apenas gesto. Ou movimento. Ou acção. Ou, mais simples ainda, o que de facto é em cada caso: uma finta, ou um drible, que é a mesma coisa. Um toque de calcanhar, um domínio da bola, com paragem da dita no peito ou na coxa, uma recepção, um passe, a bicicleta, ou o pontapé da dita, enfim…

Quando alguém diz que o Xavi num gesto técnico perfeito colocou a bola nos pés do Messi que, com outro gesto técnico ainda mais perfeito passou por cinco adversários. Ou que o Cristiano Ronaldo num gesto técnico irrepreensível colocou a bola fora do alcance do guarda-redes, ninguém fica a perceber muito bem o que se passou, tanto mais que já todos sabemos que isso é o que cada um desses faz. Sempre e bem! Já quando se ouve que o Helder Postiga, com um gesto técnico desastrado, sozinho à frente da baliza atira a bola para a bancada, todos percebemos o que se passou. E já nem é por estarmos habituados à cena, é porque a bola para a bancada diz tudo!

Os gestos técnicos estão, como tudo ou quase, sujeitos às tendências da moda. E, como se sabe, não faz moda quem quer. Apenas quem pode!

Vejamos estes dois gestos: a trivela e o passe de letra. Do primeiro já falamos aqui há uns tempos, nada a acrescentar. Para a letrapasse, mas também remate, que ainda cá não tinha sido trazida – há que dar uma ajuda.

Diz-se que o passe é de letra – ou o remate, porque o gesto é também já utilizado para rematar à baliza – quando é efectuado a partir de um movimento em que o pé que toca a bola está por trás – e não ao lado - do outro, o de apoio, num movimento em que as pernas se cruzam num movimento contrário ao habitual, da frente para trás. Nunca percebi por que lhe chamam de letra - até porque o futebol não é muito dado a estas coisas das letras – mas admito que alguém veja ali o desenho de um L…

Ao evocar estes dois gestos técnicos alguns lembrar-se-ão de um ciganito que por aí andou há uns tempos: Ricardo Quaresma. Bem poderia ter sido ele o criador da moda, mas não fica assim na história. Quando era Nuno Gama no Porto quis ser Roberto Cavalli em Milão! Não resultou (terá sido dos anéis?) e lá vai ele parar à Turquia, que não é exactamente um grande centro mundial da moda. E hoje, trivela e passe de letra, são vulgares, massificados e estão disponíveis em qualquer pronto-a-vestir. Até nos chineses…

Já a bicicleta tem a grife de Cristiano Ronaldo e está tudo dito: sucesso garantido! É o gesto mais estúpido que existe, mas é do CR7, nada a fazer… Ah! Uma ajudinha, também: a bicicleta é aquele movimento em que, simulando o pedalar da bicicleta, se passam uns segundos que parecem uma eternidade sem que nem o jogador que o executa, nem a bola, nem o adversário - que é suposto enganar - saiam do mesmo sítio. Nunca dá em nada, mas pegou moda e é vê-lo por aí repetido por esses campos fora, como se de grande gesto artístico se trate! É o gesto preferido de Hulk, e nem os grandes jogadores do Barcelona o dispensam, como ainda agora se viu no Mónaco!

Já o pontapé de bicicleta não tem nada a ver com isto. É um gesto de elevado grau de dificuldade e de grande espectacularidade. Vale por si mesmo e não entra em modas. Se é moda é intemporal! Precisamente porque é um recurso último, quando só resta rematar com o pé que está mais à mão, como vimos esta semana Witsel (que grande jogador!) exemplificar no primeiro dos seus dois golos e dos três com que o  Benfica despachou a equipa de Co Adrianse.

O que já se vê muito pouco é o chamado pontapé de moinho. É um pontapé em que o movimento circular do corpo, todo estendido no ar paralelo ao solo, sugere o de um moinho. Ou o pontapé de tesoura, uma designação sinónima, que associa o movimento das pernas no momento do remate ao de uma tesoura. Artur Jorge, há 40 anos, no Benfica, foi quem em Portugal mais contribuiu para a fama deste gesto, mais difícil de executar e mais espectacular ainda que o pontapé de bicicleta. Executava de forma brilhante, e com muita frequência, este movimento que ficará para sempre ligado ao seu nome: um pontapé à Artur Jorge!

Como ao seu nome ficará também ligado o toque de calcanhar. Porque era ele o treinador do FC Porto que ganharia a Taça dos Campeões Europeus, em 1987 em Viena, com o tal golo de calcanhar de Madjer. A partir daí, e por muitos e bem mais espectaculares golos de calcanhar que tenham acontecido – e muitos foram, incluindo os do agora madrileno Falcao, que me lembre é o único jogador que apresenta no seu cardápio de golos toda esta gama de gestos técnicos – calcanhar e Madjer passaram a ser a mesma coisa.

E, curiosamente, o mais banal de todos os gestos técnicos, continua com a cotação em alta!

Futebolês #52 FOLHA SECA

Por Eduardo Louro

 

      

Folha seca é a expressão que o futebolês criou para identificar um gesto técnico de remate: um remate desferido com a parte interior do pé que leva a bola a descrever uma curva no sentido do pé contrário. A bola parte de um ponto e descreve a curva que a leva a fugir … fugir… Vai fugindo do guarda-redes como se de uma folha seca se tratasse: leve, levemente levada pelo vento, que nos foge a cada vez que a tentamos agarrar!

Daí que, a exemplo de todas as que por aqui têm passado, a expressão faça todo o sentido, o que só abona em favor do próprio dialecto.

Mas falar da folha seca sem falar da sua irmã gémea – a trivela – seria deixar de fora uma parte de si própria. É conhecida a fortíssima ligação dos gémeos: num, há sempre um pouco do outro, ou não estivéssemos perante um dos mais interessantes mistérios de partilha e de cumplicidade!

A trivela pode nascer do mesmo pé – gémea verdadeira – ou do pé contrário – falsa gémea, mas igualmente irmã gémea. Mas, ao contrário da folha seca, é impulsionada com a parte exterior do pé: chama-se-lhe também pontapé dos três dedos, o que permitiria chamar à folha seca pontapé do joanete. A partir daí faz a sua vida, que é como quem diz, faz a sua curva – agora no sentido do próprio pé que remata. Depois tudo continua igual: a bola sempre a fugir do guarda-redes que, por mais que se estire, nunca a conseguirá encontrar.

Como duas belas jovens gémeas, também a folha seca e a trivela cultivam uma certa rivalidade. Afinal uma quer sempre ser a mais bela das duas…

Não sei se é a trivela a mais bonita, mas talvez seja a que mais deu nas vistas! Por ter dado umas voltas com um ciganito que por aí andava? Acredito que sim!

Por isso hoje dei a ribalta à folha seca!

Por isso e porque me faz lembrar esta equipa do Benfica. Porque, sabendo-se de onde partiu, não se sabe onde irá acabar por cair. Sabe-se que anda por aí, à toa, ao sabor do vento, sem destino certo e afastando-se de todos os objectivos, um a um, como a bola em folha seca se afasta de quem a possa deter. Porque, como as folhas secas, também começou a cair no Outono. E, também como elas, não demonstra capacidade para alterar o rumo que os ventos lhe traçam nem fugir ao terrível destino de estatelar ao comprido e, quem sabe, acabar pisada, esmagada e triturada. Reduzida a pouco menos que nada!

Desde o início de Agosto que aqui se tem falado no que falhou. Não vale a pena repeti-lo.

Agora, se nada for rapidamente feito, se ninguém puser ordem na casa e assumir as responsabilidades que não podem ser negligenciadas, o Benfica corre o risco de nada ganhar e de voltar a recuar no difícil percurso da recuperação do prestígio perdido. Corre sérios riscos de, como o país, continuar a divergir.

Em circunstâncias normais, no final desta e a exemplo da última época, teria de vender os passes dos jogadores mais valorizados. Na calha estavam, vindos já da última época, David Luiz, Fábio Coentrão e Cardozo! Afastado dos milhões da champions tem agora, em compensação, de vender mais e mais cedo. O problema é que o acelerado processo de desvalorização em curso não transforma apenas as cláusulas de rescisão em miragens. Vai obrigar mesmo a vender em saldos!

É o resultado de evidente falta de competências na gestão dos recursos que fazem hoje o negócio do futebol. É difícil de entender como é que ninguém foi capaz de pôr mão no David Luiz, deixando transformar um grande jogador de futebol numa pseudosuperstar displicente e irresponsável. Como se está a matar o melhor jogador da equipa – Fábio Coentrão – transformando um dos melhores laterais esquerdos do mundo num jogador esforçado mas pouco mais que vulgar.

É evidente que as responsabilidades principais não podem ser imputadas a Jorge Jesus. Terão que o ser a quem permitiu que ele se blindasse da forma que o fez e que se auto barricasse transformando-se em refém de si próprio.

Recordam-se dos deprimentes últimos jogos de Camacho, quando ele surgia invariavelmente incapaz de encontrar explicação para aquilo? Quando se ficava por “um não sei explicar, não encontro explicação”? Jorge Jesus, como se vê, já está nessa fase …

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