Depois de ter comprado o twitter, de o ter renomeado X - o fetiche alfabético do senhor - eliminado qualquer mecanismo de verificação de factos, para deixar a mentira à solta e ao sabor do algoritmo, ao que se diz, Elon Musk prepara-se para comprar o TikTok.
Depois de ter comprado a rede social dos cotas, vai comprar a dos putos. Curiosamente proibida por Trump no primeiro mandato, em 2020, por ser chinesa. Decisão que, curiosamente, se tornará efectiva no próximo dia 19, na véspera da tomada de posse de Trump. E - por que não dizê-lo - também de Elon Musk. Curiosamente, nos últimos dias, Trump pediu á Justiça americana para adiar essa data.
Não há curiosidades. Nem coincidências. Há apenas mais razões para termos mais medo!
Se isto não são apenas excessos de ano novo - também num bar da cidade de Cetinje, no Montenegro, um homem armado abriu fogo e causou pelo menos 10 mortos - lá mais para para perto do dia 20, é bem possível que seja o Twitter a despenhar-se de uma janela da Trump Tower.
Elon Musk, o mais rico do mundo e dono da rede social X, o antigo Twitter - que comprou, e que em tempos banira Trump - entrevistou, ele próprio, o próprio Trump. A coisa não começou lá muito bem - por problemas técnicos decorrentes de um cyberataque, na versão de Musk - mas acabou em missão cumprida: elogios recíprocos, Musk a "vender" Trump aos mais de 194 milhões de seguidores que tem na sua taberna mal frequentada, e Trump de novo em força de barriga encostada ao balcão.
Poucos negócios se terão feito em tão pouco tempo. E no entanto é um dos maiores de sempre, e certamente o mais importante.
Em 4 de Abril Elon Musk anunciou a compra de 9,2% do Twitter. Dez dias depois diz que afinal não chega, quer ficar com tudo só para ele. Oferece 43 mil milhões de dólares, e os accionistas dizem que se trota de uma OPA hostil. E onze dias depois, a 25 de Abril, o negócio é dado por fechado por 44 mil milhões.
O homem mais rico do mundo, de quem se diz que tem tudo o que quiser, quis ter o Twitter. Para ganhar dinheiro, talvez não. Diz-se que aquilo não dá... Não é a maior rede social, mas é a mais influente. É a que políticos e jornalistas de todo o mundo não dispensam.
O casamento do homem mais rico do mundo com a plataforma de comunicação mais influente do mundo, não é nada de espantar nos tempos que correm. Que o homem mais rico do mundo tenha as suas excentricidades, também não. Já se tem tanto de génio como de teórico da conspiração, as coisas podem correr mal. É mesmo muito provável que corra mal!
Em plena guerra das máscaras, Trump foi apanhado por um dos seus mais usados instrumentos de guerra, o Twitter.
Na sua delirante visão da covid-19, Trump encontrou nas máscaras novos moinhos de vento alinhados contra a sua reeleição e, no país mais atingido pelo vírus, já à beira dos 100 mil mortos, transformou o uso de máscara numa questão político-ideológica. Em mais um factor de divisão dos americanos, que agora também se dividem entre os que usam e os que não usam máscara.
Andava Trump entretido de espada em riste contra as máscaras quando o Twitter entendeu reforçar as suas regras para combater a desinformação e as fake news, criando sinalizações que identificam os conteúdos como "potencialmente enganosos" e associando-lhe links para informações sobre o tema. Onde, como não poderia deixar de ser, Trump foi apanhado logo à primeira.
O governador da Califórnia, o democrata Gavin Newsom, decidiu enviar boletins de voto por correspondência a todos os eleitores registados no Estado, como medida excepcional para a votação no contexto da pandemia. Porque isso era dar importância à pandemia que continua empenhado em desvalorizar, Trump correu a postar contra o voto por correspondência, com supostas consequências fraudulentas.
O Twitter não deixou passar sem sinalizar com a mensagem "aceda aqui a todas as informações sobre a votação por correspondência". Foi o suficiente para Trump acusar a rede social de "interferência directa nas eleições", e de "sufocar completamente a liberdade de expressão", o que ele nunca permitiria.
É esse o seu ponto de chegada. A um ponto em que nunca, nada nem ninguém o impeça de mentir, como lhe apetecer, à medida dos seus interesses ou simplesmente à dos seus delírios... Esperemos que fique pelo caminho, e nunca lá chegue!
O "golpe de estado" que ontem (o)correu no país do Twitter, a lembrar a mítica transmissão radiofónica de Orson Wells da "Guerra dos Mundos", é bem capaz de, pelo excesso próprio deste tempo mediático e das redes sociais, ter acabado no efeito contrário, eventualmente diamentralmente oposto, ao pretendido.
É que provavelmente cirunscreve o "golpe de estado" de Cavaco a um simples fait divers e remete-o para o caixote dos likes e dos lol.
Provavelmente fica muito do espectáculo e muito pouco do que lhe deu origem. Da substância. Do que no Daily Telegraph se ecreveu: “pela primeira vez, desde a criação da união monetária europeia, um Estado-membro tomou a iniciativa explícita de proibir os partidos eurocépticos”. Que um italiano qualquer aproveitou para linkar, ironizando que a União Europeia declarara a suspensão da democracia em Portugal, obrigando os portugueses a continuar a votar até que o resultado fosse o pretendido.