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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Vuelta 2023 - Ponto Final

Volta a Espanha - Dia de consagração para Kuss - TopCycling

Terminou ontem em Madrid a Vuelta deste ano. As próximas pedaladas da grande corrida espanhola serão dadas em Lisboa, ponto de partida da Vuelta 2024.

Tudo tinha ficado resolvido na quinta feira, na 18ª etapa, mesmo que a de sábado fosse a tal de montanha russa. Era a mais longa desta Vuelta, com quase 210 kms num traçado que percorria a Sierra de Guadarrama e voltava a ser ao jeito de Rui Costa, como então aqui tinha dado nota. E foi. Não deu para ganhar mas voltou a ter um excelente desempenho, andou sempre na frente, num grupo de luxo constituído pelos grandes nomes excluídos do topo 10, e acabou em sexto. Também não deu para Evenepoel, que estava empenhado em ganhar tudo. Foi segundo, batido no sprint final por Wout Poels.

Dez minutos depois chegou o grupo dos primeiros da geral onde, na dura subida Alto de San Lorenzo de El Escorial, e no pouco que ficou a restar para a meta, João Almeida impôs o ritmo para defender o quarto lugar do seu colega Ayuso, afinal o único que poderia estar em risco.

Na chegada a Madrid, a Vuelta seria completada num circuito de15 voltas pelas ruas da capital, com passagens pelos principais pontos de referência da cidade. Aí acabou a festa e o passeio, próprios das etapas de consagração. E aconteceu tudo o que raramente acontece nestas etapas finais das grandes voltas. Porque a Vuelta é mesmo assim. Só não houve novidade nos animadores. Rui Costa foi um deles, e até dos principais. Evenepoel, inevitavelmente, outro. 

Rui Costa foi o primeiro a sair e a isolar-se, com mais dois ciclistas da Bora. Um deles Lennard Kämna, velho conhecido do Rui. Estiveram sempre juntos em todas fugas em que participaram, e foram muitas. Quando o Rui ganhou, ganhou a Kämna. Depois foi Evenepoel a atacar, e a acabar por se lhes juntar. Como o belga punha em risco a camisola dos pontos de Grooves, o corredor da Alpecin- Deceuninck colou-se-lhe. É normal que o melhor sprinter ganhe na última etapa. Mas Grooves percebeu que tinha de seguir Evenepoel para conseguir ganhar.

Até nisto a Vuelta é diferente. Depois de um final emocionante, com o pelotão a anular a fuga em cima da meta, mas já sem nem tempo, nem forças, para qualquer comboio de lançadores de sprint, foi Grooves quem ainda estava em melhores condições para ganhar. Ganhou, como era suposto, mas completamente fora do que era suposto. E consolidou a primeira posição nos pontos. Rui Costa acabou por voltar a repetir o sexto lugar do dia anterior.

E ponto final. Kuss ganhou, como deveria ser. Vingegaard e Roglic fecharam o pódio. De uma única equipa, todos da imbatível Jumbo. Que pela primeira vez ganha as três maiores competições do ciclismo mundial: Roglic, no Giro, Vingegaard, no Tour e Kuss na Vuelta.

Evenepoel ganhou a montanha. E só não ganhou nos pontos porque, nesta classificação, as vitórias em etapas de montanha valem apenas 20 pontos. Contra os 50 das etapas planas. E mesmo assim ainda tentou, da forma que se viu, buscar o 50 pontos de Madrid. Suficientes apenas e só se Grooves não pontuasse. E acabou por proporcionar os melhores momentos de espectáculo de ciclismo desta Vuelta. 

Dos portugueses, Rui Costa acabou por fazer uma grande prova. Como João Almeida, que talvez pudesse ter feito algo mais. O nono lugar da geral sabe a pouco, especialmente depois do pódio no Giro, mas não deixa de ser um bom resultado. Nelson Oliveira viu-se aqui ou ali. Mais ali, no contra-relógio. Os outros não deixaram história. Porque não puderam. Guerreiro pela infelicidade da queda, bem cedo.

Para o ano há mais. E em Lisboa!

 

Vuelta 2023 - Lições

Team Quick Step's Belgian rider Remco Evenepoel celebrates winning the stage 18 of the 2023 La Vuelta

A 18ª etapa da Vuelta, hoje corrida pelas montanhas das Astúrias, era a última de alta montanha. Das três que faltam apenas a de sábado, a penúltima, uma daquelas tipo montanha russa de que Rui Costa gosta, poderá alterar, e ainda assim muito pouco, do pouco que pode mudar na classificação.

Sendo uma etapa de elevado grau de dificuldade, e tendo praticamente decidido a Vuelta, foi mais que uma etapa de confirmação da classe de Evenepoel, que entrou em fuga 12 quilómetros depois da partida, correu na frente os restantes 167, deixou para trás quem quis, e quando quis, ganhou as três classificações de montanha e garantiu a  respectiva camisola, e chegou isolado à meta, com quase 5 minutos de vantagem para o segundo (Caruso) e 10 para os principais da classificação geral. Foi uma lição de vida!

Foi, antes de mais, uma lição de ciclismo de Evenepoel. Mas também uma lição de vida. Esteve para abandonar depois da "catástrofe" do Tourmalet. Disse que foi a mulher que lhe pediu que não o fizesse e, por ela, continuou. E voltou a dar espectáculo como nenhum outro, e a ganhar. Ontem parecia ter desaparecido, depois de ter entrado em mais um fuga. Não desapareceu, apenas percebeu que não valia a pena investir nela. Que não era a certa, e mais valia resguardar-se para hoje. Para ganhar pela terceira vez, e demonstrar que é, física e mentalmente, um campeão.

Mas foi acima de tudo uma lição de vida de Vingegaard. A novela da Jumbo, com Kuss, Vingegaard e Roglic como personagens, tem aqui sido bastamente relatada. Quando, ontem, a juntar ao que já se passara na véspera, depois de deixar a liderança de Kuss presa apenas por 8 segundos, Vingegaard disse que gostaria que o seu companheiro ganhasse a Vuelta, a declaração soou ao mais vil da hipocrisia. Kuss só não acabara de perder a "vermelha" por ter tido a ajuda de Mikel Landa, e por em cima da meta o ter passado para assegurar os pontos da bonificação pelo terceiro lugar. Pediu desculpa ao corredor espanhol, disse-lhe que tinha vergonha do que acabara de lhe fazer, mas que a isso tinha sido obrigado pelos colegas de equipa.

É difícil intrepretar de outra forma aquela declaração do vencedor do Tour. Mas é possível acreditar que se arrependeu. Mas também que a direcção da equipa, porventura com receios de danos de imagem, tenha sido obrigada a reconhecer que os ataques de Roglic e Vingegaard a Kus passavam a ser intoleráveis.

Fosse pelo que fosse, a verdade é que, hoje, o campeão dinamarquês redimiu-se. A apenas 8 segundos do seu colega de equipa, hoje teve tudo para lhe ganhar essa diferença e até muito mais. E renunciou sempre. Na última subida, nos últimos 4 quilómetros, a mais de 10 minutos de Evenepoel, o grupo dos primeiros estava reduzido a seis corredores. Eles os três, e ainda os espanhóis Ayuso,  Mikel Landa e Enric Mas, os três a disputar o quarto lugar da geral, separados por 30 segundos. 

Todos atacaram, para se atacarem. A cada ataque de cada um deles, bastaria a Vingegaard responder para deixar Kuss para trás. Nunca o fez. Pelo contrário manteve o ritmo, impediu as tentações de Roglic, segurou sempre Kuss e acabou sempre a anular as tentativas dos espanhóis. Mas fez mais: nos últimos metros abrandou e deixou que os outros cinco se fizessem à meta, entregando 9 segundos ao seu colega. Para lhe dar a tranquilidade de 17 segundos de vantagem na liderança!

Não tenho a certeza que tenha sido bonito, mas foi o final feliz de uma novela que não estava a ser bonita. E Kuss vai certamente ganhar a Vuelta. Como merece. Como é justo. Não é o ciclista mais forte desta Vuelta, onde só faltou Pogacar para estarem todos os melhores do mundo. Evenepoel - traído pela súbita quebra no Tourmalet, mas isso é ciclismo -, Roglic e Vinguegaard, são mais fortes. Sem dúvida. Mas, por tudo o que tem feito por eles ao longo de anos, Kuss merecia a gratidão que tardou em ser demonstrada.

E só não consigo dizer que foi bonito porque Jonas Vingegaard deu, mas quis mostrar que estava a dar. Bonito é dar sem exibir. Já Roglic, nem isso.

João Almeida hoje não esteve nos melhores dias. Descolou do grupo dos primeiros ainda na penúltima subida, para depois fazer o que já é habitual - ir recuperando lugares. Perdeu cerca de 1 minuto, um pouco menos, para os seis primeiros. E manteve naturalmente o 9º lugar na geral, de onde dificilmente sairá.

 

 

 

Vuelta 2023 - Liberdade na ditadura da Jumbo

Roglic no cree que el Tour vaya a ser un duelo entre Pogacar y él

Tinha aqui escrito que Vingegaard e Roglic aguardariam ansiosamente um ataque de Ayuso, o quarto da geral e o primeiro fora da Jumbo para, nas últimas altas montanhas desta semana final, atacarem a liderança de Kuss.  Queria com isso dizer que tinha por certo que ambos queriam ganhar a Vuelta, mas que, nem eles, nem a direcção da Jumbo, teriam "lata" para atacar directamente o colega. O fiel escudeiro que tanto tem trabalhado para as suas vitórias, e que inesperadamente vira chegar a sua vez de ganhar. 

Estava enganado. Nem Ayuso, nem qualquer outro adversário, lhes deram essa oportunidade, e precisaram de outros pretextos. E até de pretexto nenhum.

Ontem, na 16ª etapa, entre Liencres Playa e Bejes lá no alto de La Hermida, bastou a Vingegaard o pretexto de  homenagear o colega Van Hooydonck, vítima nesse mesmo dia de um ataque cardíaco, seguido de despiste, quando seguia ao volante do seu carro, na Bélgica, e em crítico estado de saúde. Ganha-la-ia de qualquer forma, sem necessitar de deixar Kuss em dificuldades. Mas não. Atacou a sério, para ganhar a etapa e atacar a liderança. Ganhou mais de um minuto a Kuss e a Roglic, ficando a apenas 29 segundos da vermelha, e retirando o segundo lugar ao esloveno.

Hoje, na etapa mais dura da Vuelta, com a meta no mítico L`Angliru, já nem precisaram de pretexto algum. Simplesmente seguiam os três na frente, e iriam repetir o inédito feito do Tourmalet. Mas não. E desta vez foi Roglic. Atacou e Vinguegaard seguiu-o, deixando Kuss para trás. Era o dia do aniversário do americano, mas nem isso lhe valeu. 

Valeu-lhe o espanhol Mikel Landa, um adversário da Bahrein, que se lhe juntou e o levou na roda até à meta, onde Roglic fora primeiro, sem discussão com Vingegaard (também era só o que faltava). kuss até acabou por ser terceiro, repetindo o feito da equipa no Tourmalet. Mas foi um adversário que lhe deu a prenda de anos que os colegas lhe negaram, e que lhe permitiu até manter a camisola vermelha, agora presa por apenas 8 segundos. Para Vingegaard. Para Roglic, é mais um minuto. Nada que não resolvam certamente amanhã, o último dia de alta montanha.

Dizem, da equipa, que os três gozam de liberdade total para fazerem o que quiserem na corrida. Afinal há liberdade na ditadura que a Jumbo instalou nesta Vuelta. Não há é gratidão. Nem sequer respeito.

Também na UAE não funciona essa coisa a que se chama equipa. Já se tinha visto noutras ocasiões, em muitas delas com João Almeida com razões de queixa. Hoje foi ao contrário. Foi o português, com mais uma excelente prestação - sexto na etapa, a 58 segundos de Roglic - que se esteve nas tintas para Ayuso e para Soler. O jovem espanhol ainda se aguentou. Foi nono na etapa e segurou o quarto lugar da geral, se bem que já muito apertado por Landa, a apenas 16 segundos. Soler afundou-se, e caiu de sexto, a apenas 3 minutos de Kuss, para 13º, a 22. E foi justamente à sua conta que João Almeida, a acabar a Vuelta ao seu melhor nível (Kuss deve-lhe a ele não ter perdido já ontem a liderança, pois foi ele a "dar sapatada" que reduziu a vantagem de Vingegaard) subiu a nono, e praticamente garantiu um lugar no top 10. 

Ah... E Evenepoel já não é notícia. Mas ainda tem que defender amanhã o primeiro lugar da classificação da montanha.

Vuelta 2023 - Rui Costa de "vuelta"

Vuelta: Rui Costa vence a 15ª etapa da Volta a Espanha

A décima quinta etapa, corrida hoje entre Pamplona e Lekunberri, fechava a segunda semana da Vuelta. Mas não era isso que a tornava desejada pelos adeptos portugueses do ciclismo. Era porque, acreditávamos, tinha um traçado - de altos e baixos, numa espécie de montanha russa - à medida de Rui Costa, o campeão português no ocaso da carreira, e esquecido pelos feitos de João Almeida.  

Há 10 anos fez História. Foi campeão do mundo. Ganhou a Volta à Suíça e ganhou duas etapas no Tour. À porta dos 37 anos, ia em 10 sem resultados à altura do seu estatuto de grande do ciclismo mundial. Havia como que uma certeza que esta etapa estava marcada na sua agenda como a etapa a ganhar.

Ontem havia entrado na fuga certa, donde tinha saído o recital de Evenepoel. Quando abdicou deixara logo a ideia de ter sido um ensaio para hoje. E que teria decidido reservar as forças justamente para hoje. E assim foi. Agarrou a fuga do dia, de novo com o campeão belga empenhado em continuar a demonstrar que o Tourmalet não passou de um acidente em que o ciclismo é fértil. Já perto da meta, mas nem tão perto assim, saiu para a vitória, levando o espanhol Buitrago na roda. Só quis isso mesmo o espanhol. Não cooperou, apesar dos apelos do Rui Costa, e esse desafio fez com que o alemão Leonard Kamna, o mais rápido, e por isso mais perigoso adversário, se lhes juntasse, já à entrada do último quilómetro. Repetiu-se, agora a três, o que já tinha acontecido com o espanhol. Se antes se mediam a dois, agora mediam-se a três. E isso ia dando mau resultado, já que o grupo de Evenepoel se aproximava a olhos vistos. 

Rui Costa sentiu o perigo e deu uma sapatada. Os outros dois reagiram, e foi o suficiente para a evitar a chegada do grupo, e chegarem os três aos últimos metros. Buitrago, com mais dificuldades de ponta final, foi o primeiro a atacar. O alemão respondeu, e parecia ter barrado o caminho ao corredor português. Mas Rui Costa guinou para a direita e encontrou o buraco para, em cima da meta, por meia roda, ganhar.

Voltar a ganhar, 10 anos depois numa grande volta. E voltar a lembrar ao mundo o seu nome. Ainda grande!

Vuelta 2023 - A ditadura

Vuelta: Jumbo-Visma estampa autoridade e Sepp Kuss alicerça candidatura à geral

Está a completar-se a segunda semana da Vuelta, provavelmente a mais espectacular das três grandes competições do ciclismo mundial. Por ser a última do calendário mas, acima de tudo, por ser normalmente a mais aberta. Esta, deste ano, por ser a mais recheada de estrelas: à excepção de Pogacar, conta com todas as estrelas maiores do universo do ciclismo, o que não aconteceu no Giro nem no Tour.

Lá estão Vinguegard, campeão do Tour, Roglic, vencedor do Giro, Remco Evenepoel, campeão do mundo, que este ano ainda não tinha participado em nenhuma das grandes voltas do World Tur (impedido no Giro, por ter testado positivo ao Covid já em competição) e que era tido pelo único ciclista capaz de bater os três grandes (Vinguegard, Pogacar e Roglic) e, claro, a armada completa (apenas sem Yates) da Emirates, com João Almeida, Ayuso e Soler. Completa também (e que armada!) a da Jumbo.

Uma fuga na primeira semana acabou por catapultar para os dois primeiros lugares, e logo com a respeitável vantagem na ordem dos dos minutos, dois corredores de respeito, mas fora da lista dos principais favoritos: o americano Kuss, da Jumbo, e o espanhol Soler, da Emirates. 

De Kuss, sabia-se que é um trepador de eleição e, provavelmente, o maior gregário do mundo. Ajudou Roglic a ganhar o Giro, e foi decisivo na vitória de Vinguegaard no Tour. Não se sabia do que seria capaz no papel, e com a responsabilidade, de candidato a ganhar uma grande Volta. De Soler sabe-se que é um bom ciclista, sempre capaz de andar nos primeiros lugares, mas incapaz de grandes rasgos.

O primeiro grande teste a estes dois estava marcado para o contra-relógio de Valladolid, na passada terça-feira, onde Evenepoel, o recém campeão do mundo da especialidade, era o grande favorito. Mas foi apenas segundo, atrás de Filipe Ganna, também já campeão mundial, e pouco à frente de Roglic e de João Almeida. Que fez um contra-relógio fabuloso, ao seu melhor nível, subindo então a sexto da geral, num top 10 que incluía ainda Nelson Oliveira.

Kuss e Soler equivaleram-se, e defenderam bem as suas posições. Para o americano da Jumbo, contando com o melhor colectivo da actualidade, de longe e praticamente imbatível, e com a esperada gratidão de Roglic e Vinguegard - era a hora de lhe retribuírem tudo o que tem feito por um e outro - o desempenho no contra-relógio foi como que o carimbo na lista de principais candidatos à vitória final. O resto fez ele próprio nos dias que se seguiram, demonstrando sempre condições para estar na frente, sem vacilar.

Andavam as coisas assim, com Kuss de vermelho, Soler ali perto, e Vinguegaard, Roglic, João Almeida, Ayuso e Evenepoel todos juntos logo a seguir, até à etapa de ontem, com subida do Tourmalet, já depois da do Aubisque. Aí mudou tudo. Ou quase.

Evenepoel desfaleceu logo no início da etapa, não se sabe bem por quê, a não ser que são coisas que acontecem no ciclismo. A João Almeida não aconteceu a mesma coisa, nem o resultado foi o mesmo, mas também foi alvo de um dia não. O campeão belga nunca mais se encontrou e perdeu quase meia hora. O João, doente, com dores no corpo, uma infecção na garganta e uma noite sem dormir, também ficou para trás logo no início. Mas foi o que é: um campeão e um guerreiro. Fez do resto da etapa, nas subidas do Aubisque e do Turmalet, uma sucessão de "almeidadas", e acabou no 15º lugar na etapa, limitando as perdas a 6 minutos e 47 segundos para Vinguegaard, o primeiro lá no alto. À frente de Kuss, que voltava a dizer que quer, e merece, ganhar a Vuelta, e de Roglic. 

Os três da Jumbo, que ficaram também os três primeiros da geral. Se não é inédito, anda lá perto. Inédito é, seguramente, a mesma equipa ganhar no mesmo ano as três grandes Voltas!

João Almeida, apesar do esforço épico, caiu para o 10º lugar na geral. 

João Almeida ainda foi capaz de responder ontem mesmo ao infortúnio. Evenepoel fê-lo hoje. Afastado da luta pelos primeiros lugares com os 28 minutos perdidos ontem, hoje teve liberdade para atacar. E fê-lo de imediato. Nada melhor que matar o fantasma logo na primeira oportunidade!

E foi um espectáculo. Só no ciclismo podem acontecer coisas destas. Num dia, a derrota inapelável. No seguinte, uma exibição de esplendor na estrada. Foi para a frente logo no início, subiu na frente tudo o que foi montanha que encontrou. Bardet ainda o acompanhou, talvez mais de 100 quilómetros, sempre na sua roda. A vantagem ia aumentando, quilómetro a quilómetro. Passou os 8 minutos para o grupo dos favoritos, onde os restantes 7 dos 10 primeiros não conseguiam sequer revoltar-se contra a ditadura da Jumbo, imposta pelos três do pódio.

Ayuso ainda tentou, uma ou duas vezes. E pareceu até que a ideia agradava quer a Roglic quer a Vinguegaard. Sem "moral" para atacarem Kuss, a resposta a um terceiro seria o pretexto ideal. O americano sabia disso, nunca desarmou, e tudo ficava na mesma.

A 4 quilómetros lá do alto de  Larra-Belagua nem foi preciso Evenepoel atacar. Bardet acabaria por ceder e lá seguiu sozinho o campeão belga até á meta, cortada em lágrimas, com mais de um minuto de vantagem sobre o francês, e mais de 8 sobre o grupo dos primeiros da geral, onde João Almeida se incluía, mantendo o seu 10º lugar, a 8:39 de Kuss, mas a mais de 6 minutos do quinto, Enric Mas.

A Vuelta, a mais democrática das três grandes corridas do mundo é, desta vez, uma ditadura. Da Jumbo. A uma semana do fim, é a mais fechada de todas. Evanepoel deverá ainda ganhar mais uma ou duas etapas. Segurará certamente a camisola da montanha, que hoje arrebatou a Vinguegaard. Mas nem no top 10 entrará. 

A Ayuso, quarto, e primeiro não Jumbo, estará agora reservado o papel principal. Se, prisioneiro da armada da Jumbo, se resignar ao seu quarto lugar, Kuss já ganhou. Se atacar para chegar ao pódio, apenas abre a Vinguegaard e a Roglic oportunidade para atacarem o colega de equipa. Sabem que não o devem fazer. Mas que o querem, já se percebeu!

Vuelta 2022 - Fim

Ao 21º dia de corrida - de calendário foram mais três - terminou a Vuelta, em Madrid, em plena Cibeles, com a vitória ao sprint - como tem que ser - do colombiano Molano, da equipa de João Almeida que, surpreendentemente, bateu o melhor sprinter da prova - Pedersen, o incontestado camisola verde - e Ackermann, o sprinter da sua própria equipa, ambos superiormente trazidos para o sprint final pelo português Ivo Oliveira. Afinal também há colombianos dotados para o sprint, e capazes de bater os melhores especialistas!

Quando, à sexta jornada, Evenepoel vestiu a roja, escrevi aqui que estaria encerrando o ciclo de mudanças diárias na liderança. Até aí a camisola vermelha tinha mudado de corpo em todos os dias, e escrevi então que "a partir de hoje vai certamente ser diferente". Que o jovem belga deixara "claro que agora é para segurar". Não imaginava então que a segurasse até ao fim, e que seria o grande vencedor desta Vuelta. Nem eu, nem quase ninguém!

Evenepoel é um jovem, com apenas 22 anos - não é por falta de jovens valores que o ciclismo terá o futuro em causa; vimos no Tour, e voltamos a ver na Vuelta, uma classificação geral praticamente decalcada da classificação da juventude - e não dispunha de equipa para lhe garantir tamanho sucesso. A Quick-Step Alpha Vinyl está muito longe do poderio da concorrência. E não é fácil vencer uma competição de três semanas sem a protecção de uma equipa forte, e especialmente preparada para isso.

É certo que o abandono de Roglic, que tentava a quarta vitória consecutiva - as três conseguidas já eram feito único -, e que mostrava ser o único adversário capaz de o desafiar, facilitou-lhe as coisas. E é ainda certo que a forma como a corrida se desenrolou a partir desse abandono, mas também já antes, permitiu-lhe aproveitar o trabalho das equipas adversárias, sem que precisasse muito da ajuda da sua. Mas não lhe bastou ser apenas inteligente a capitalizar essas condições. Teve que ter pernas, força e determinação para se aguentar sempre no meio do trabalho das equipas adversárias. E não só teve, como teve sempre resposta para os ataques dos adversários e ainda para tomar, ele próprio, iniciativas de ataque.

E foi tão afirmativo, tão convincente em cada vez que o fez, que, na decisiva etapa de ontem, de alta montanha e aquela que tudo decidiria (nova vitória de Carapaz, que assegurou o prémio da montanha, "herdado" pelo abandono de Jay Vine), não foi sequer atacado por Enric Mas - novamente segundo - vencido e convencido. Pelo contrário, o que se viu ao longo de toda a etapa, foi quase uma aliança táctica entre os dois. Luís Almeida que o diga!

Que ontem voltou a fazer uma etapa notável, confirmando a ideia que poderia ter feito muito melhor. Se tivesse entrado melhor na primeira semana ... e se o seu estatuto de líder tivesse sido levado a sério. Ontem tinha o quinto lugar para conquistar, e conquistou-o com categoria, à custa de Carlos Rodriguez. Outro fantástico jovem que, diminuído pela queda, dois dias antes, prosseguiu com bravura. Não conseguiu resistir aos ataques de João Almeida, apesar do forte apoio da sua equipa (Ineos) e acabou ainda ultrapassado por Arensman (mais um dos que aproveitaram os ataques de João Almeida). Por 12 segundos, caindo para sétimo.

O pódio, depois de Evenepoel e Mas, acabou completado com Ayuso. Outro jovem - apenas 19 anos - de grande valor. Mas mau companheiro, tanto quanto deu para perceber. Ontem demonstrou-o mais uma vez. João Almeida,  que até parece um tipo com bom feitio, terá de o tolerar como colega de equipa, mas não o quer certamente para amigo!

Amigos ficarão certamente os dois primeiros. Andaram sempre juntos, e sempre na melhor das harmonias, sem zangas. Os dois minutos de vantagem de Evenepoel sobre Enric Mas não são mais que os que o belga ganhou ao espanhol no contra-relógio!

 

Vuelta 2022 -IV

João Almeida, ciclista da UAE Team Emirates

Correu-se hoje a 18ª etapa da Vuelta - provavelmente a mais espectacular desta edição - de média montanha, entre Trujillo e Piornal, na Estremadura, já sem Roglic. Que ficou fora da corrida no arranque desta terceira e última semana, anteontem, depois do último dia de descanso, na passada segunda-feira, depois de uma queda no final da 16ª etapa, em cima da meta, quando disputava o sprint para a vitória na etapa, confirmando-se como o mais azarado cilcista dos últimos anos. 

Evenepoel furou - há até quem diga que simulou um furo, mas isso são as más línguas - 800 metros depois da entrada nos últimos três quilómetros, circunstância que o deixava a coberto de qualquer perda de tempo para o grupo principal, e Roglic atacou para lhe ganhar tempo e vencer a etapa. Inexplicavelmente caiu, a poucos metros da meta, e ficou bastante mal tratado, impedido de partir para etapa de ontem. Quando era segundo, a apenas 1´e 26´´, e parecia o único ciclista com condições para derrotar o jovem belga. 

Esta etapa de hoje acabou por não provocar grandes diferenças na classificação, mas nem por isso deixou de ser uma corrida espectacular, a mais excitante desta Vuelta.

Ontem já João Almeida aparecera, e mostrara toda a qualidade que lhe é reconhecida. Não ganhou muito com isso, foi apenas 13º na etapa, ganha por Rigoberto Uran, à frente do grupo de 12 ciclistas que resistiu em fuga, e ganhou apenas 9 segundos aos da frente. Mas o ataque que desferiu na subida, nos últimos três quilómetros, deixando toda a gente para trás, foi uma demonstração do seu bom momento, já que a sua qualidade está mais que demonstrada. Hoje voltou a fazê-lo, com uma etapa extraordinária.

É certo que voltou a não ganhar muito com isso, foi décimo na etapa, e acabou até por perder 13 segundos para Evenepoel - que voltou a ganhar - e para Enric Mas, segundo na etapa. Mas acabou por ganhar algum tempo aos que lhe sucedem na geral, alargando diferenças, e ganhou um pouco mais de 1 minuto a Carlos Rodriguez, aproximando-se do seu quinto lugar, agora à sua mercê, a apenas 25 segundos.

A etapa começou mal, com uma queda que mandou para o hospital o jovem australiano Jay Vine, um dos maiores animadores da prova e virtual vencedor da montanha. E deixou bastante mal tratado o também jovem Carlos Rodriguez, que ainda assim resistiu heroicamente e conseguiu, numa etapa super disputada como foi esta, perder apenas 1´e 20´´ para os da frente. Hoje, com a ajuda da equipa - Ineos - resistiu. Amanhã, se conseguir ter condições para partir para a etapa, ou no sábado, dificilmente será.

Mas também com uma fuga, numerosíssima, com 41 corredores. Que foi ganhando tempo e mais tempo ao pelotão. João Almeida bem queria lá ter estado, mas é um dos mais vigiados do pelotão, e não lhe dão facilmente essas condições. Estava a fuga com 9 minutos de vantagem, e faltavam 85 quilómetros para a meta e três montanhas - na verdade apenas duas, o Alto del Piornal é que foi subido por duas vezes - para subir, quando atacou. Sozinho.

A partir daí foi uma corrida espectacular de João Almeida. Começou por fazer tudo sozinho, com dois colegas de equipa na fuga - o compatriota Ivo Oliveira e o espanhol Marc Soler. Primeiro, mas mesmo assim tarde para quem assistia à corrida, foi o seu compatriota a cair do grupo da frente para lhe dar uma ajuda. Fez o que pôde, e teve de deixar João Almeida de novo entregue a si próprio, subida acima. Que mesmo assim ia tirando tempo à fuga e mantendo, e às vezes até ganhando para o grupo dos principais da classificação. E nunca mais se via o espanhol, para a dar uma mãozinha. Acabou por aparecer à vista do corredor português, lá em cima, já no fim da segunda montanha, na primeira subida ao Alto del Piornal. Pareceu tarde, mas enfim... O espanhol deu mesmo uma boa ajuda, e acabaram por chegar juntos ao primeiro grupo da fuga inicial, já na derradeira subida, quando Soler encerrou o trabalho. 

João Almeida não estava agora sozinho. Mas tinha sozinho de fazer todo o trabalho. Ninguém colaborou com ele. Ou porque não pudessem, ou porque não lhes interessava. E no entanto poderia interessar, desde que admitissem que poderiam chegar aos que de lá tinha saído e disputar a etapa. 

E aos poucos, com os movimentações lá atrás na guerra da geral - todos atacaram, mas Enric Mas, e especialmente Evenepoel, deram espectáculo - o grupo acabou alcançado pelos primeiros da classificação, que acabou com tudo. Menos com João Almeida, que seguiu com eles. E eles eram todos os que estavam à sua frente menos o infeliz Carlos Rodriguez. A partir daí já só tinha a ganhar o que podia ser ganho - tempo ao quinto classificado.

O pódio ainda não estará descartado. E um lugar no top 5 está muito próximo. Seria bom que não fosse pela desistência do Carlos Rodriguez.

Evenepoel parece indestronável, mas nada está fechado até ao final da tarde de sábado. O último dia D. O D de domingo é F, de festa!

Vuelta 2022 - III

João Almeida na Volta a Espanha

Correu-se hoje a etapa rainha da Vuelta, a 15ª, na Sierra Nevada, quando a competição está prestes a fechar a segunda das suas três semanas, depois de se ter transferido das Astúrias para a costa mediterrânica, e de ter descido de Valência para a Andaluzia.

Se esta era a etapa rainha, donde tudo se esperava, foi no entanto a de ontem, também já com muita montanha, com chegada à Sierra de la Pandera - onde Carapaz voltou a ganhar (já tinha vencido a 12ª, também em montanha, e juntou-se, com duas vitórias, ao australiano J Vine, líder da montanha e a grande revelação da prova) a que mais pôs o lider à prova. Evenpoel, que tinha iniciado a segunda semana reforçando a liderança, no contra-relógio de pouco mais de 30 quilómetros (10ª etapa) entre Elche e Alicante, em que deu "um banho" a toda a concorrência, enfrentou grandes dificuldades, e perdeu tempo para os principais adversários, deixando a ideia que não resistiria à alta montanha. 

Para já, resistiu. Mesmo sendo 10ª na etapa, imediatamente à frente de João Almeida, e voltando a perder tempo para os mais directos perseguidores, e em especial para Roglic e Mas, segurou a "roja" com 1´e 49´´ para o esloveno e 2´e 43´´ para o espanhol.

Ambos atacaram. Enric Mas, primeiro, e ganhou mais com isso. Foi segundo na etapa, atrás do holandês Arensman (que subiu a 8º, a apenas 5 segundos de João Almeida), e ganhou tempo aos dois primeiros. Roglic, já só atacou o belga da camisola vermelha depois de não ter conseguido responder ao ataque de Mas, e foi quinto na etapa. 

Evenpoel chegou a dar a ideia que não conseguiria resistir, e que acabaria por se afundar nos últimos quilómetros, serra acima. Mas acabou por encontrar o seu ritmo, minimizar os estragos, e manter bem vivas as hipótese de chegar a Madrid na frente.

A corrida de João Almeida tem sido de grande regularidade. E marcada pelas condições já conhecidas. Sabia-se - tinha-o dito o próprio - que não estava completamente recuperado depois do Covid que o afastou do Giro, e sabia-se - tinha-se já visto claramente na primeira semana - que o estatuto de chefe de fila era só no papel. A equipa, claramente bem apetrechada de ciclistas, tanto que nem admira que lidere a classificação colectiva, nunca esteve disposta a funcionar como tal, ao serviço de um líder. E a corrida do miúdo Ayuso, com os seus 19 anos o mais novo da corrida, e com muita qualidade, mais acentuou esse problema.

Até porque, no contra-relógio, onde o João Almeida deveria fazer a diferença para o seu jovem companheiro, e ultrapassá-lo na classificação geral, as coisas não lhe correram bem. Enganou-se no percurso e, com o tempo (e não só, certamente) que perdeu, não conseguiu melhor que o 15ª registo, a 2´13`` de Evenpoel, logo atrás de Nelson Oliveira (a 1´59``), nem tirar mais que 4 segundos à diferença que tinha para Ayuso.

Tem andado sempre entre o 6º e 8º lugar da geral, e nestas etapas de alta montanha, sempre a correr de trás para a frente, entregue a si próprio, mas também sempre com bons desempenhos. Hoje, nesta etapa rainha, voltou a não fugir à regra. 

Na fuga, mais uma vez um colega de equipa - Marc Soler - desde muito cedo. João Almeida ficou para trás, e depois foi subindo. Quando a etapa verdadeiramente se começou a decidir já lá estava, a encostar ao grupo dos favoritos. Já tinha apanhado Ayuso e Carlos Rodriguez - outro promissor miúdo espanhol, da Ineos e 4º da geral. Assistiu-se então a um pequeno número de jogo de equipa, entre os dois, para derrotar Rodriguez. Pequeno, porque Soler continuava lá na frente, desgastado e já sem qualquer possibilidade de ganhar a etapa, em vez de estar a ajudar os dois companheiros da equipa que contam para a geral. E apenas útil para Ayuso (7º na etapa), em disputa directa com Rodriguez, a quem acabou por ganhar perto de 2 minutos, o suficiente para lhe "roubar" o 4º lugar da geral.

 

Vuelta 2022 - II

Correu-se hoje, nas Astúrias, a oitava etapa da Vuelta, entre Pola de Laviana  e Yernes y Tameza, corrida em montanha, e com a meta a coinicidir com uma contagem de 1ª categoria. 

Jay Vine voltou a ganhar em montanha, como há dois dias, a confirmar que é um grande trepador, e o dos que atravessam o melhor momento de forma. O ciclista australiano pertence a uma nova geração de ciclistas que vem do Zwifit, uma plataforma que se transformou numa verdadeira academia de ciclismo.

Voltou a dar espectáculo, e ganhou lá em cima, á frente de todos os que o acompanharam na fuga que desde cedo se desenhou, entre os quais gente de respeito como Soler (companheiro de João Almeida, que quebrara o jejum espanhol, a voltar a confirmar que quipa é coisa que não lhe assiste) que acabou segundo, Taramae (3ª), Pinot (4ª) ou Landa, que já não resistiu à perseguição final do grupo dos principais protagonistas.

João Almeida fez a sua corrida, de trás para a frente, como já vem sendo hábito nas mais difíceis etapas de montanha. E sempre sozinho, sem equipa. Mesmo quando alcancou o miúdo Juan Ayuso, seu colega de equipa, teve que ser ele a fazer a despesa. Acabou por perder mais alguns segundos para os três da frente - onde  Evenepoel, como aqui se previa, já não é um portador transitório da roja e que, com Mas e Roglic, começam a desenhar o pódio - mas também acabou a subir dois lugares, fixando-se agora no oitavo posto da geral.

Vai bonita, esta Vuelta. Beneficia de ser a última oportunidade para a redenção da época, tornando-se numa competição mais aberta, e do facto de ter menos estrelas do sprint, o que faz com que as etapas sejam menos controladas pelas respectivas equipas.  

E tudo isto a torna na mais aberta, e muitas vezes na mais espectacular - mesmo que, neste ano, o Tour tenha sido insuperável - das três grandes voltas do calendário internacional!

 

Vuelta 2022 -I

UAE Emirates e Espanha tiveram o grande dia ao Sol(er), Rudy Molard ganha  liderança a Roglic na quinta etapa da Vuelta – Observador

A Vuelta chegou à sexta etapa, com a chegada, hoje, ao Pico Jano, na Cantábria. Foi a primeira etapa de verdadeira montanha, com a meta a coincidir com uma contagem de primeira categoria, e começou a definir a relação de forças dentro da corrida.

Até aqui a camisola "roja" tem saltado todos os dias de um para outro - seis etapas e seis líderes diferentes. Ontem, na chegada a Bilbao, registara-se a primeira fuga bem sucedida, com Marc Soler, colega de  equipa de João Almeida na Emirates a ganhar - a primeira vitória espanhola numa das grandes voltas em dois anos, 121 etapas depois -  4 segundos à frente de dez ciclistas, mas 5 minutos à frente do pelotão principal. O que levou Roglic a entregar a "roja", que acabara de vestir, ao francês Rudy Molard. Que ficou com ela pendurada por 2 segundos para um companheiro de fuga, mas segura por mais de 4 minutos para as figuras importantes da competição.

Afinal bem mais pequenos que os 2 segundos neste primeiro teste de montanha. Nem os mais de 4 minutos foram suficientes para evitar que a camisola vermelha voltasse a não parar mais que um dia no mesmo corpo.

A partir de hoje vai certamente ser diferente. O australiano Jay Vine ganhou em Bilbao, com 15 segundos de vantagem sobre o belga Evenepoel, que passou a ser o novo líder, batendo claramente todas as grandes figuras da prova, e deixando claro que agora é para segurar. Pelo menos por mais uns dias!

João Almeida chegou em nono, com Roglic, perdendo ambos 1minuto e 22 segundos para Evenepoel e Enrique Mas, e entrou no top 10, já quase a 2 minutos da liderança, e mantendo os 53 segundos de desvantagem para Roglic, agora 4º classificado. Mas com evidentes dificuldades em manter o estatuto de chefe de fila da Emirates que, de resto, parece não passar do papel.

Na realidade não se percebe esse estatuto no comportamento da equipa. Ontem tinha sido o seu colega Soler a atacar. No fim, ganhou a etapa, e isso desculpa tudo. Só que hoje repetiu-se, desta vez com outro espanhol, Ayuso, um miúdo de 19 anos. Não ganhou, foi quarto na etapa para, no fim, acabar por ganhar 40 segundos ao português. E já não desculpa nada. Apenas demonstra que João Almeida foi novo abandonado pela equipa. E que o putativo estatuto de líder da equipa é para ser disputado.

E neste momento João Almeida tem que contar que entre os seus principais adversários - Evenepoel, Mas, Roglic, TJ Hart, Hindley ou Simon Yates - está também o seu companheiro de equipa, o miúdo de 19 anos, no quinto lugar da geral a pouco mais de 1minuto da liderança, encostado a Roglic e a meio minutos de Enric Mas.

Para se ter uma ideia de como está esta Vuelta, e de como valorizar o desempenho de João Almeida até ao momento, e nestas condições, Carapaz é 19º, a 3 minutos. Rigoberto Uran e Pozzovivo, estão mais para baixo, a 4. Mikel Landa, ainda mais para baixo, a 7 minutos. Pinot, Nibali e Allaphilippe mais ainda, já entre os 15 e os 20 minutos. Froome é 150º, a 1 hora.

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