Diz o Diário de Notícias que Rui Moreira, de 69 anos, o anterior presidente da Câmara do Porto e mandatário da candidatura presidencial de Marques Mendes, foi escolhido por Montenegro para embaixador de Portugal na OCDE, onde irá substituir Manuel Lobo Antunes, um diplomata de carreira, de 67 anos, em funções desde 29 de Março de 2022, que deixa o cargo por limite de idade.
Bem sabemos que nem todos envelhecemos da mesma maneira. Que ninguém dá 69 anos ao Rui Moreira, que nem um cabelo branco tem para apresentar. E que, claro, quem envelhece ao nosso lado, envelhece sempre menos!
Passa já uma semana sobre uma das maiores catástrofes climatéricas que se abateu sobre o país, na tempestade a que deram o nome de Kristin - que sucedeu à Ingrid e à Joseph -, e estamos já no meio de outra, a Leonardo. Ainda não é a distância para se lhe escrever a História, mas já dá para para muita história.
Tudo começou com um "sms" banal - "vento intenso, fique atento, siga as recomendações" -, a que foi dada exactamente a importância das coisas banais - nenhuma. O "sms" era dirigido à população em geral que, ao não lhe ligar coisa nenhuma, foi apanhada desprevenida.
Já isso foi mau. Pior é que o Governo, a Protecção Civil, e os Autarcas não estavam mais prevenidos. Se os estivessem nem o "sms" teria sido aquele.
O primeiro-ministro preocupa-se com imigrantes, segurança e impostos. Está cá "para resolver os problemas das pessoas", desde que não decorram de catástrofes, bem entendido, e para a evangélica missão de levar os portugueses à "superação", sob a inspiração de CR7. As questões climáticas, de que já ouviu vagamente falar, ficam para os activistas.
A Protecção Civil é o brinquedo que os Governos preservam religiosamente para os seus boys. Cada vez que o brinquedo muda de mãos, chamam-lhe reestruturação. Como os boys são muitos, muda muitas vezes. Está em permanente reestruturação, e não pode estar preparada para muito mais que emitir um "sms" manhoso.
O governo não foi apanhado de calças na mão. Foi apanhado nu, e assim vai ficar.
Maria Lúcia Amaral, a ministra (zombie) da Administração Interna será para sempre o rosto da barata tonta que nos surgiu em forma de governo. Depois de dias de desaparecimento, apareceu-nos a dizer que vinha de um "estado invisível", sem saber o que tinha falhado, para entrar definitivamente no anedotário nacional com a "cena" da "aprendizagem colectiva".
António Leitão Amaro, o ministro da Presidência, não lhe quis ficar atrás, e acentuou a imagem de indigência do governo, naquele vídeo a auto-promover-se, cheio de si, no meio da tragédia.
Seguiu-se Nuno Melo, o Ministro da Defesa, como se de um desfile se tratasse. As Forças Armadas não foram tidas nem achadas na prevenção, nem na intervenção no cenário de crise. Mas o ministro apareceu a mostrar-se ao lado de um mini-contigente militar, num terreno que nada tinha a ver com qualquer cenário de crise. Garantida a fotografia, logo que o contingente de jornalistas e repórteres destroçou, o ministro desapareceu. O ministro e os militares, que ninguém viu mais por ali, porventura mobilizados para a festa de aniversário que um sargento, na missão de sacrifício que tanto sensibilizou o ministro, havia trocado por tão imperativo sentido patriótico.
Manuel Castro Almeida, o Ministro da Economia, e dos fundos europeus, também quis dar o seu contributo. Falou das ajudas às pessoas - do pacote de 2,5 mil milhões para acudir a famílias, empresas e autarquias que, após uns dias a patinar, e depois de ligar para Bruxelas, Montenegro anunciara -, que estariam disponíveis lá para o final do mês. Até lá as famílias têm o “ordenado do mês passado", ainda fresquinho.
Também Luís Montenegro se quis associar à realidade alternativa que os seus ministros apresentaram ao país: não houve mortes, houve apenas pessoas "que não evitaram a trágica consequência de perder a vida".
Uma tragédia dentro da tragédia. Dentro de muitas tragédias ...
Da tragédia do Siresp, a rede de comunicações de emergência do Estado que soma tragédias a cada tragédia. Da tragédia do falhanço completo dos monopólios e oligopólios da electricidade e das comunicações, magras no investimento e gordas nos resultados e nos dividendos. Da tragédia do abandono do interior, mais gritante a cada tragédia. Da trágica ideia de um Estado que falha sempre que não pode falhar.
Só faltava que, com tanta tragédia, tão à flor da pele, as eleições do próximo domingo revelassem mais uma - a tragédia de um povo definitivamente vencido pela descrença e pelo obscurantismo
O primeiro-ministro, que de governar só conhece a parte que é para a fotografia, surgiu ontem em registo de discurso motivacional travestido de mensagem de Natal, a vender-nos uma imagem do país toda ela em photoshop.
Estamos nos últimos tempos a ser diariamente bombardeados com acontecimentos que nos anunciam a derrocada da nossa democracia.
Basta juntar as peças.
André Ventura permanentemente nas televisões, e agora até a abandonar os estúdios.
No meio da agonia do SNS, uma grávida e o seu bebé morreram. Para a ministra Ana Paula Martins houve uma falha grave - foi mal informada. E agiu em conformidade: aceitou a demissão do administrador do hospital que lhe deu a informação errada. Para ela, a falha grave não foi ter morrido uma grávida e o bebé; foi o administrador tê-a tê-la informado erroneamente sobre a vítima. Para a ministra, a grávida que acabou de morrer, como todas as grávidas que têm os seus partos em todos os locais e circunstâncias possíveis, menos numa sala de partos, são mulheres "recém-chegadas a Portugal, com gravidezes adiantadas, que não têm dinheiro para ir ao privado. Grávidas que algumas vezes nem falam português, que não foram preparadas para chamar socorro, por vezes nem telemóvel têm.” São pobres, e morrem porque são pobres. E vêm para Portugal para aproveitar as borlas do SNS.
Já tínhamos ouvido isto. Sabemos onde. Agora alguém achou que era a hora de o governo incorporar este discurso.
Dois dias depois de ter tomado posse, um deputado municipal de Setúbal, do Partido Socialista, foi detido e constituído arguido pelo crime de roubo. Ao que dizem as notícias por assalto a menores na via pública, para financiar o seu consumo de drogas.
Até aqui, histórias destas, aconteciam no Chega. Não quer dizer que não sejam muitas - e velhas - as histórias de criminosos nos partidos centrais do regime. São conhecidas, e nem têm nada a ver com estas histórias de "pilha galinhas" que só conhecíamos no Chega. São de outra dimensão. Estas histórias têm a ver com outra coisa - a dificuldade de recrutamento dos partidos políticos em crise.
Viu-se nestas autárquicas, um pouco por todo o país, mas claramente nas áreas onde a perda de influência é mais gritante, a falta de exigência que o PS colocou na escolha dos candidatos. Sem campo de recrutamento, para participar, o PS aproveitou tudo o que veio à rede.
Os acontecimentos destes dias não são apenas o Chega a alargar os limites, que não tem. São também os partidos do regime a incorporar, um, as suas ideias; o outro, as suas práticas.
O governo de Netanyahu enviou forças militares para, num acto de pirataria naval, interceptar embarcações em águas internacionais e raptar as respectivas tripulações, que levou para Israel.
Depois de as manter detidas por dois, e até mais dias, deportou-as por via aérea para os países de origem. Aconteceu assim com cerca de 500 activistas de diversos países, entre os quais quatro portugueses.
Não é conhecido o tratamento que os governos dos diversos países deram aos respectivos cidadãos, deportados por via aérea de um sítio para onde foram raptados. Sabe-se que o governo português, o governo da Pátria dos quatro portugueses, entendeu que não havia quaisquer contas a pedir ao governo de Israel, mas apenas aos seus cidadãos. Que a conta do avião que os trouxe de um sítio para onde não quiseram ir, para onde não foram de livre vontade mas, antes, levados à força, com armas apontadas à cabeça, era sua. E entendeu informá-los disso através do jornais e das televisões.
Entende-se. Entende-se que, para o governo, não tem - obviamente - qualquer importância o custo de quatro viagens de avião de Israel para Portugal. Entende-se que, para o governo de Montenegro, Rangel e Nuno Melo, realmente importante é que os portugueses saibam que são aqueles portugueses que têm de pagar aquela viagem.
E entende-se - temos que entender - que somos nós os culpados de as coisas estarem a ser entendidas assim. De termos chegado aqui, ao reino absoluto do populismo!
O ministro dos Negócios Estrangeiros considerou que as detenções (dos activistas da flotilha) feitas por Israel foram “ilegais”. “Israel não o poderia fazer”.
O primeiro-ministro não condenou a acção das autoridades israelitas, criticou o activismo, e apenas quis garantir que estavam a ser feitos todos os esforços para trazer os portugueses em segurança. Que, em vez de detidos numa prisão de alta segurança, nas palavras de Montenegro estão apenas sob a responsabilidade das autoridades israelitas.
Nuno Melo, o ministro da Defesa, preferiu criticar abertamente os activistas, dizendo mesmo que Mariana Mortágua colaborava com “terroristas”.
A utilização das Lages pelos seis F-35 americanos com destino a Israel, e os respectivos reabastecedores KC-135, em Março e Abril, quando o governo tinha anunciado a decisão de não permitir a utilização da base aérea para o abastecimentor militar a Israel, esteve escondida até ontem, quando o El País o denunciou, levando o Expresso a questionar o governo.
Para o primeiro-ministro, não há qualquer problema. No lugar de uma questão de Estado vê um mero “erro processual”. O ministro dos negócios estrangeiros, Paulo Rangel, depois de ter negado a ocorrência, acabou por dizer que não foi informado do movimento das armas para Israel e que, por causa disso, vai abrir um processo para “apurar responsabilidades”. A que terá de imediato colocado ponto final, ao perceber que elas iam direitinhas ao ministro da defesa, concluindo prontamente por “falha de procedimentos”. Nuno Melo, esse, limitou-se "a mandar apontar a mira" para outro lado.
Estas duas estórias, ambas fresquinhas, têm demasiados pontos em comum. Um deles é que ninguém se entende. Sem que ninguém se incomode com isso!
O governo decidiu comemorar oficialmente os 50 anos do 25 de Novembro, e criou uma comissão para o efeito, "com a missão de promover e organizar as Comemorações". Uma comissão de nove membros, a funcionar na dependência directa do ministro da defesa nacional - Nuno Melo, como sabemos - que tem tudo para correr bem.
Correr bem, como sabemos, é exaltar o 25 de Novembro e "bater" no 25 de Abril, vontade expressa do governo e áreas adjacentes.
De resto começou logo a correr bem no normativo que oficializa a decisão das comemorações e a criação da respectiva comissão, a Resolução do Conselho de Ministros nº 132-A/2025, quando refere que foi graças ao "25 de Novembro" que "foi possível realizar em 25 de abril de 1976 as primeiras eleições livres e democráticas em Portugal, por sufrágio direto e universal".
A comparação de "25 de Novembro" com "25 de abril" - maiúscula e minúscula - podia ser só ignorância. Desconhecer que "as primeiras eleições e democráticas livres em Portugal" ocorreram em 25 de Abril de 1975, antes, e portanto sem nada a ver com o 25 de Novembro, podia continuar a ser apenas ignorância. Mas não é.
De gravata preta, depois da festa do Pontal e das férias, Luís Montenegro apareceu nas televisões a pedir desculpa por alguma coisa que pudesse ter corrido mal. Não é que tivesse essa percepção, mas admitia que algumas pessoas a tivessem. Pelo caminho, e para trocar as voltas às percepções, propagandeou uma quantidade de medidas de apoio às populações assoladas pelos incêndios, com destaque para aisenção de taxas moderadoras no SNS, que já não existem desde maio de 2022.
De mal, a pior!
Para as televisões tudo se resume a um problema de comunicação do governo. Afinal, Montenegro queria referir-se às taxas moderadoras sem referenciação prévia.
Mas não. Se calhar o único problema que o governo não tem é o da comunicação. Está entregue ao António Cunha Vaz e, ao contrário da grande maioria do governo, esse é um profissional competente. Claro que também tem férias, e certamente também em Agosto...
O problema do governo é a competência. O problema do governo são as baratas tontas que por lá andam. Já o problema de nos tomar por parvos é nosso. Não é do governo!
No mundo de percepções em que decidiu fingir governar, Montenegro deixou ontem, na festa do Pontal, que toda a gente percebesse que ele não percebe que o país está perceber que ele não percebe nada do que está a acontecer.
Bem sei que estamos em plena silly season, aquele período do ano em que, mesmo que tudo aconteça, não acontece nada.
Acontecem incêndios por todo o interior do norte e centro do país. Acontece que o país arde como sempre, mas mais que quase sempre. Mais de 6 mil incêndios já destruíram mais de 63 mil hectares de floresta. Acontecem situações dramáticas, casas a arder, aldeias isoladas pelas chamas, pessoas evacuadas e pessoas fechadas em igrejas, à espera que o fogo passe. Acontece porque nas televisões não acontece mais nada; se não, não acontecia.
Como não acontece, para o governo. Nem uma palavra. Nem do secretário de Estado, nem da ministra, nem do primeiro-ministro. No final da semana passada ouviu-se a ministra, para declarar o estado de alerta. Ontem, quando o silêncio era ensurdecedor, de repente, o primeiro-ministro surge nos ecrãs das televisões.
- Finalmente o chefe do governo vai falar ao país - pensou-se.
Não, o descaramento não está apenas em não haver secretário de Estado, nem ministra, nem primeiro-ministro para falar dos incêndios que assolam o país; mas haver dois ministros e o primeiro-ministro para entregar 26 casas. Nem na "ajuda às famílias para desenvolverem sonhos". Está, com as autárquicas à porta, em apresentá-las como exemplo de que o Município de Faro, em vez de "virar as costas aos problemas, procura implementar soluções".
Na verdade as 26 casas fazem parte de um programa de 49, lançado há mais de dois anos pelo anterior governo, e financiado pelo PRR, para realojar famílias de pescadores que aceitem a demolição das suas habitações na Praia de Faro. Que, na verdade, até agora, apenas 26 dessas famílias aceitaram.
Mas governar por percepções também é isto. Não é apenas procurar soluções manhosas para problemas que não existem. E, pelo que se vai percebendo, resulta!
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