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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #93 VAGABUNDO

Por Eduardo Louro

  

Vagabundo é alguém que não leva uma vida certinha claramente sedeada e centrada na sua casa. É alguém que vagueia de rua em rua ou de lugar em lugar. Um nómada, sem casa e sem abrigo, que vive de pequenos trabalhos que encontra. Ou de esmolas, variante então conhecida por mendigo, mais fixo e menos itinerante.

Pelo que se vê a condição de vagabundo não será das mais lisonjeiras. Mas piora bastante quando se passa da dimensão mais ou menos objectiva do dicionário para uma dimensão conceptual mais alargada. Aí o termo ganha contornos de verdadeiro insulto, atingindo o seu apogeu no Brasil, onde vagabundo é mesmo do piorio!

Por cá, mesmo não sendo tão chocante, não é epíteto recomendável: não deixa de ser um vadio que passa pelo lado de fora da sociedade, um marginal! Nem mesmo indo procurar um sentido romântico – o gosto pela aventura, pelo risco e por experiências novas ou a ânsia de viajar e conhecer mundo – se consegue esconder, ou mesmo disfarçar, o lado sombrio do vagabundo. Sempre ligado à exclusão e à pobreza muito antes de lhe descobrir qualquer lado romântico!

Precisamente o inverso do que acontece no futebolês, onde os vagabundos são normalmente os mais fascinantes, os mais interessantes, os mais românticos e até os mais ricos. Quase sempre ricos, eventualmente bonitos e, sempre, grandes jogadores, precisamente os atributos que Cristiano Ronaldo reivindicou para si próprio esta semana, dentro da sua já habitual modéstia.

Uma equipa de futebol obedece, cada vez mais, a uma forte cadeia de comando assente numa disciplina forte, mesmo espartana. Os treinadores exigem que os jogadores cumpram as instruções que lhes fornecem, aquilo a que gostam de chamar disciplina táctica. Não se cansam de exaltar a disciplina da equipa e de invariavelmente lhe atribuir os louros do sucesso. Não admira, porque com isso estão a valorizar-se a si próprios. Ninguém está disposto a deixar os seus créditos por mãos alheias, a deixar para os outros aquilo que quer fazer seu, e os treinadores não fogem a essa regra. Se os objectivos foram atingidos o mérito é seu: os jogadores cumpriram à risca as instruções que levaram para dentro do campo - dizem invariavelmente! Ou fomos rigorosos e disciplinados.

Esta disciplina corresponde à antítese do vagabundo.  Agarra o jogador à sua casa, na circunstância a sua casa táctica, o espaço natural onde o treinador o obriga a viver. Mas há sempre espaço para o vagabundo, o jogador que tem um estatuto que obriga o treinador a libertar-lhe as amarras. O jogador que não quer nem precisa de casa, de que conhece apenas a porta de saída!

A condição de vagabundo é genética, e a mais apetecida. Nasce com o jogador, quando se vê jogador já se sente vagabundo. Depois há os que justificam essa condição e a impõem a quem quer que seja e os que, pelo contrário, se querem vingar naquela vida têm que abandonar aquele lado rebelde e tornarem-se autênticos meninos de coro. Nem pensar em xixi fora do penico!

Mesmo assim ainda são muitos os que ousam explorar os caminhos da rebeldia – a maioria das vezes mal sucedidos - e poucos os verdadeiros e consequentes vagabundos. As grandes equipas têm naturalmente lugar para um vagabundo, daqueles mesmo à séria. As médias, mais porque querem imitar as grandes que por outra razão, entregam esse estatuto a um ou outro mais rebelde. Só as pequenas, os mais humildes, é que, ironicamente, não têm vagabundos: não se podem dar a esses luxos, ali é mesmo para cada um cumprir rigorosamente o que lhe está destinado pelo treinador.

Rebeldes, ou simples atrevidos, há muitos. Vagabundos é que não! Vemos um em Barcelona – Messi, pois claro – que até parece rodeado de alguns rebeldes. Pura ilusão, apenas habitam casas maiores. Não saem de casa, não senhor! E vemos outro em Manchester, Rooney, que acaba precisamente de conquistar esse estatuto. E está a levar isso tão a sério que até já tem cabelo, pronto a crescer para lhe dar style! Em Madrid, onde ainda há poucos anos morava um dos maiores (Zidane, evidentemente), Cristiano Ronaldo não é exactamente um vagabundo, não que alguém lhe negue esse estatuto. É mesmo ele que, de tão disciplinado que é, tem dificuldade em adaptar-se ao papel.

A verdade é que estas são as três melhores equipas do mundo. E teremos muita dificuldade em encontrar mais vagabundos.

 

 

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