Tour 2023 - II

Está cumprida a primeira semana do Tour, na sua 110ª edição. Amanhã será dia de descanso.
Foi uma primeira semana completamente diferente daquilo que é habitualmente a semana inicial do Tour, tudo por força de se ter iniciado no País Basco, com os Pirineus ali tão perto. Se nas duas primeiras etapas Pogacar fez questão de mostrar que estava forte - provavelmente para esconder as fraquezas de uma preparação interrompida com a queda em Abril, na clássica Liège-Bastonne-Liège, com a fractura de um pulso a obrigar intervenção cirúrgica - para impor respeito aos seus mais directos adversários e ganhar tempo de recuperação, a quinta, a primeira a sério nos Pirineus, entre Pau e Larons, encarregou-se de lhe desmontar a estratégia.
Uma fuga numerosa, que incluía Jay Hindley, o australiano em estreia no Tour, mas já com provas dadas, acabou por ditar a história da etapa. A fuga conquistou um vantagem apreciável que, a não ser reduzida, transformaria o ciclista australiano, que ganhou a etapa e conquistou a amarela, numa séria ameaça para os principais favoritos.
A equipa da Emirates acabou por ficar sozinha nessa tarefa de reduzir o tempo para Hindley. Conseguiu reduzir a diferença para a casa dos dois minutos, mas "rebentou" aí. Esgotada fisicamente, ou esgotado o sentido colectivo da equipa nessa tarefa, deixou Pogacar sozinho, à mercê da estratégia da Jumbo Visma. Que, se em individualidades não lhe fica atrás, em sentido colectivo e estratégico, fica-lhe muito à frente.
Com Pogacar desguardado, a estratégia era testar as suas verdadeiras capacidades. Assim foi e, no momento certo Vingegaard atacou sem que o esloveno conseguisse responder. Ganhou-lhe mais de um minuto, e acabou a meio minuto de Hindley. Mas, mais que tudo isso, mais que derrotar circunstancialmente Pogacar, levantava dúvidas sobre a sua real condição para discutir a vitória neste Tour.
Dúvidas que duraram pouco. Logo no dia seguinte, na curta (faltavam 100 metros para os 145 quilómetros) etapa de despedida dos Pirineus, entre Tarbes e Cauterets, com passagem pelos míticos Col de Aspin e Tourmalet, antes dos quase 16 quilómetros finais da subida ao Cambasque, onde Rúben Guerreiro acabou em quarto - depois de integrar a fuga do dia e andar sempre na frente - Pogacar tratou da "vingança".
A etapa acabou por ter muitas semelhanças com a anterior. Também a Bora, à semelhança da Emirates no dia anterior, se esgotou na perseguição à fuga para defender a amarela de Hindley. E a Jumbo também apostou na mesma estratégia da véspera. Só que, desta vez, quando Pogacar e Vingegaard ficaram a sós, foi o ciclista esloveno quem atacou. E foi por aí acima, até ganhar na meta. Com escassos 24 segundos de vantagem para o ciclista dinamarquês - que assim "roubou" a amarela ao australiano, que caiu para terceiro na geral -, recuperando metade do tempo que perdera na véspera, mas a toda a condição de principal favorito.
Com os Pirineus para trás seguiram-se duas etapas para roladores e sprinters. A primeira - a sétima - partiu de Monte-de-Marsan - em homenagem a Luís Ocãna, vencedor do Tour em 1973, para assinalar o cinquentenário dessa vitória na terra que o grande ciclista espanhol escolheu para viver - e, por entre vinhedos donde saem dos mais famosos vinhos do mundo, acabou em Bordéus. Apostava-se que fosse a etapa em que Mark Cavendish alcançaria a sua 45ª vitória no Tour, e desempataria com Eddy Merckx. Mas Philipsen, eventualmente até com uma irregularidade no sprint, não o permitiu, e atingiu ele próprio a sua terceira vitória ao sprint neste Tour. Não teria sido um drama, se na etapa seguinte, a de ontem, Cavendish não tivesse ficado de fora da corrida, numa queda estúpida (que também atingiu Rúben Guerreiro) que lhe fracturou uma clavícula, já literalmente presa por arames (um dos ferros que a segurava acabou até por saltar).
Era o seu Tour de despedida. Como que se fosse vontade dos deuses que este fosse um recorde a manter dividido entre o maior sprinter e o maior ciclista da História.
Ironicamente, o melhor sprinter deste Tour, que até aqui tinha ganho todas as chegadas ao sprint, não conseguiu vencer, em Limoges, a etapa que destruiu o sonho do melhor de sempre.
A etapa de hoje, a fechar a primeira semana, era apontada como uma das mais importantes deste Tour. Eram pouco mais de 182 quilómetros, entre Saint Léonard de Noblat e o mítico Puy de Dôme, onde a competição não chegava há 35 anos. Onde Poulidor ganhou em 1964, batendo Anquetil num duelo espectacular, quando mais perto esteve de vestir a amarela. Que o "eterno segundo" nunca vestiu, apesar dos seus oito pódios no Tour. Por isso a partida foi motivo para mais uma homenagem ao, ainda hoje, quatro anos depois do seu falecimento, mais popular ciclista francês, centrada no seu neto, Mathieu Van der Poel, o ciclista neerlandês, nascido na Bélgica, da Alpecin- Deceuninck.
Não foi a etapa espectacular que se poderia esperar. O grupo numeroso que desde cedo se formou na frente não incluía nenhum ciclista que representasse qualquer incómodo aos da frente da classificação. Por isso foi ganhando vantagem, que chegou aos 16 minutos, já em plena subida para o Puy de Dôme, quando o grupo se começou a desfazer. E quando o pelotão passou a deixar de o ser.
Na frente saltou o americano Matteo Jorgenson, da Movistar, e parecia que ganharia a etapa. Mas aqueles últimos 4 quilómetros são certamente dos mais difíceis da prova e acabou por sucumbir já dentro do último. O primeiro, numa subida, essa sim, espectacular, vindo de trás e passando sucessivamente todos os que seguiam à sua frente, foi o veterano canadiano Michael Woods, da Israel. Pierre Latour (o francês da TotalEnergies) e o esloveno - mais um! - Matej Mohoric, da Bahrain, chegaram a seguir, e à frente do americano da Movistar.
No grupo dos principais protagonistas a história repetiu-se, com Pogacar e Vingegaard entregues um ao outro, porque são na realidade muito melhores que os outros. Pogacar atacou a 2,5 quilómetros da meta e foi embora, repetindo a cena do último do episódio. Mas, desta vez, ganhando ainda menos - 8 segundos, apenas.
Vingegaard não conseguiu responder de imediato, mas conseguiu resistir. E mostrar que tem argumentos para continuar de amarelo. Mesmo que a camisola esteja presa por apenas 17 segundos.
Dos outros, apenas salientar que, ao conservar o terceiro lugar com cómoda vantagem, Jay Hindley está a justificar o pavor que lançou nos favoritos naquela fuga dos Pirinéus. E que a jovem promessa espanhola, Carlos Rodriguez, da Ineos, mas já a caminho da Movistar, é um candidato ao pódio.