Tour de France 2025 (IV)

O Tour chegou hoje aos Pirenéus, na primeira etapa de verdadeira montanha, na chegada a Hautacam, mais de 180 quilómetros depois da partida em Auch, a capital da região histórica da Gasconha.
Foi uma etapa espectacular, como dificilmente deixaria de ser. Pogaçar deu uma sapatada logo no início da subida, de categoria especial, para o Hautacam, e ninguém mais o segurou.
Faltavam 12 quilómetros para a meta, a UAE tinha acabado de pegar na corrida, com Tim Wellens, que incorporara o grupo de fugitivos que tinham passado na frente os quilómetros anteriores, e as duas montanhas já ultrapassadas, caiu da fuga para pegar a frente do reduzido grupo do "camisola amarela". Na verdade não havia muito mais na equipa: Sivokov andou adoentado e ainda não recuperou; Soler e Adam Yates também não estavam nos melhores dias. Quando Tim Wellens abriu sobrava Jhonathan Narvaéz, olharam um para o outro, e ambos para Pogaçar. Que não respondeu com os olhos, mas com a sapatada que explodiu com todo o grupo.
Vinguegaard, como sempre, foi o único a conseguir responder. Mas por pouco. Nova explosão e Pogaçar passou a voar para a meta, sozinho naqueles 12 quilómetros que não paravam de subir, nem pareciam ter fim. Lá no alto ganhava pela terceira vez neste Tour, deixando Vinguegaard a mais de 2 minutos, com Lipowitz à perna. O alemão da Red Bull-Bora começou por tentar que Roglic saísse vivo daquela explosão, trazendo-o por ali acima. Depois, e bem, acabou por entender que tinha muito mais para dar ao espectáculo que apenas aquilo.
Sendo terceiro na etapa, foi o único a acompanhar o espectáculo de Pogaçar por aquela montanha acima. E subiu a quarto na classificação geral. Em terceiro mantém-se Remco Evenepoel (Soudal) que, depois de verdadeiramente despedaçado pela explosão de Pogaçar, fez uma notável recuperação que lhe garantiu o sétimo lugar na etapa, que lhe permite manter um lugar no pódio.
Se a etapa de hoje foi de um grande espectáculo de ciclismo, a de ontem foi a de uma extraordinária lição da dimensão do ciclismo. A menos de 4 quilómetros da meta, em Toulouse (a 11º etapa teve início e fim em Toulouse), quando os ataques se sucediam na perseguição aos três fugitivos ali á mão, Pogaçar caiu. Um corredor desviou-se para acompanhar o comboio que se deslocava para a direita, atravessou-se-lhe à frente e provocou-lhe a queda, aparatosa.
Logo ali perdeu de imediato 30 segundos. Naquela fase da corrida era inimaginável que o grupo não acelerasse, e Pogaçar perderia sempre perto de dois minutos. Mas o grupo, onde estavam o camisola amarela, o irlandês Healey (EF Education) que lha tinha retirado na véspera do descanso, e todos os principais adversários, esperou. E imediatamente Pogaçar pôde regressar, de antebraço esfolado.
Foi uma lição de fair play, e de desportivismo. Mas acima de tudo foi uma lição de respeito. De respeito enorme. Por um campeão, sim. Mas por uma pessoa!
E isso não é coisa que se veja muito nos dias que correm.