Um mês de guerra

A guerra na Ucrânia leva já um mês, cumpre-se hoje. Foi há um mês, em 24 de Fevereiro, que a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia, que há muito vinha sendo anunciada.
Poucos terão admitido que, um mês depois, estivesse no ponto em que está. Putin estava em crer, e queria fazer acreditar, que a invasão seria um passeio, e que a operação especial - que quis impor como expressão para a guerra que desencadeou - se resolveria no fim de semana. Em dois dias tomaria Kiev, tinha confidenciado sem grande confidencialidade.
Não foi assim. Estava enganado. Enganado pela sua megalomania e enganado pela corte de sequazes que o acompanha. Enganado na sua própria capacidade militar, na competência e na operacionalidade das suas forças militares. Enganado na capacidade de resistência dos ucranianos. E enganado na reacção internacional, que lhe trocou o fechar dos olhos, e o assobio para o lado de duas décadas, pelo isolacionismo e por sanções mais a sério.
Um mês depois, sabe-se Putin já perdeu a guerra; isso é um mês depois evidente. Mas sabe-se também que a Ucrânia não a ganhou. Nunca seria possível ganhá-la. Sabe-se que, perdida a guerra, Putin passou à cobarde destruição total da Ucrânia. Como fizera, e como lhe tinham deixado fazer na Chechénia, e na Síria. E não se sabe até onde chegará na escalada que já iniciou, sabendo-se que a ameaça nuclear explícita já passou a barreira da insinuação.
Sabe-se que a guerra continua e não sabe quando nem como terminará. E sabe-se que a Ucrânia corre sérios riscos se tornar um país adiado durante as próximas longas décadas. Não só pela prolongada e dolorosa reconstrução que já tem pela frente, mas ainda pelo caldo de imprevisibilidade em que ficará mergulhada.
Sabe-se que ao embrião de milícias paramilitares e militares de extrema-direita, financiadas ao longo dos anos pelos oligarcas ucranianos, como o Azov, o Dnipro 2, o Shakhtarsk, o Aidar ou o Poltava, a coberto do legítimo apelo de Zelensky à constituição de uma Legião Estrangeira para defender o país, se juntaram activistas de extrema-direita provenientes das mais diversas partes do mundo. Sabe-se que a legião estrangeira na Ucrânia é composta de gente que, sem dúvida, quer ajudar a combater a invasão, seja por militância e internacionalismo, ou simplesmente por desejo de aventura. Mas também por gente de extrema-direita que apenas procura armas, treino militar, contactos internacionais e... legitimação. Até o neo-nazi Mário Machado aproveitou a circunstância (o facto de, ao que parece, a Ucrânia lhe ter recusado a entrada, só reforça o patetismo da decisão da juíza do TIC de Lisboa de o libertar das medidas de coacção face à “situação humanitária vivida na Ucrânia e as finalidades invocadas pelo arguido para a sua pretensão”)!
Sabe-se ainda que do lado dos russos estão também na Ucrânia mercenários neo-nazis do grupo Wagner, a empresa de mercenários de Valeryevich Utkin, um ex-oficial do exército da Rússia, neonazi e condecorado pelo presidente Putin. E a máquina de terror da Guarda Nacional chechena.
Sabe-se que, em guerra e nestas circunstâncias, a Ucrânia, não tem possibilidade de qualquer controlo sobre as armas distribuídas. Não é difícil de prever a tempestade!
Sabe-se o que aconteceu no Afeganistão, e como da resistência à invasão soviética nasceu a Al-Qaeda. Ou como da Primavera Árabe nasceu o Daesh.
E sabe-se como tudo isto é perigoso para o mundo que, também por isso, não voltará a ser o que era há um mês!