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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Utopia ou Morte

Convidado: Luís Fialho de Almeida

 

Quando procurava dar ordem às coisas num espaço da casa que, não sendo vital à vida do quotidiano, serve para guardar as coisas julgadas dispensáveis, mas não de todo inúteis, reencontrei o livro “Utopia ou Morte” (edição Sá da Costa, 1975), titulo que tem a força e a visão do seu autor René Dumont (1904-2001), que foi professor do Instituto Agronómico de Paris, autor de vinte livros, pioneiro na “ecologia politica” como nova atitude do Homem para com a Terra, e profundamente empenhado no desenvolvimento dos países mais desfavorecidos do Terceiro Mundo. Foi a sua forte crença de luta universal e humanista, conhecendo os problemas de boa parte do mundo que visitou e o posicionamento estratégico da França na altura, que aceitou candidatar-se à presidência da república de França após a morte inesperada de Pompidou em 1974. Impulsionado pelos movimentos ecologistas emergentes na altura, não teve ambições ganhadoras perante Giscard d'Estaing, que ganhou ou François Mitterrand, candidato da esquerda. Mas deu luz às causas da ecologia e protecção do ambiente, hoje sempre presentes nas decisões políticas, económicas e sociais.

A candidatura de René Dumont às presidenciais de França, com o seu quartel-general instalado num dos bateaux-mouches do Sena, foi amadora e simbólica, mas fez eclodir um forte movimento de opinião em torno das novas teses de preservação da Natureza em benefício do Homem. Como disse um dos seus colaboradores, Claude-Marie Vadrot, “a ecologia fez em quinze dias tantos progressos como fizera em quinze anos”. O livro é a síntese do seu manifesto eleitoral e inclui os textos de campanha.

Volto a encontrar René Dumont no livro “A Fome” (edição Europa-América) com o texto integral das conferências e debates do Encontro Internacional de Genebra de 1960, neste ano dedicado ao tema “A Fome”, e onde foi conferencista de destaque.

A René Dumont não faltava uma certa dose de inconformismo, capaz de aliar a lucidez à coragem, a prudência à ousadia, a serenidade do cientista à exaltação do militante” como refere a nota do tradutor, Henrique de Barros (1906-1980), também ele agrónomo, docente da Universidade Técnica de Lisboa, Ministro de Estado do I Governo Constitucional, após o 25 de Abril de 1974, e indiscutível defensor do pluralismo e da liberdade.

Regressar ao passado nem sempre é saudosismo, pode ser uma revisitação às raízes em que se funda o presente, para perceber melhor os tempos que se vivem e com estes reflectir sobre o futuro. A dois anos das eleições presidenciais no nosso país, já se perfilam candidatos, não se esperando que apareça alguém que, acima dos interesses partidários e das suas pérfidas ligações, nos libertem a esperança para dias melhores na política nacional.

Cavaco Siva, com uma base eleitoral de 23.1% do total de votantes inscritos em 2011, nunca foi o Presidente de todos os portugueses. Tem sido o exemplo de político sem pensamento político, sem causa nacional e muito menos planetária, num mundo global com uma vasta comunidade lusa espalhada pelo mundo e a engrossar com o acentuado fluxo de emigração. Emigração que é a mais perversa e perigosa das exportações, como aqui refere Clarisse Louro, porque saem pessoas e competências, o nosso último e principal recurso. Cavaco Silva não é activo nas relações diplomáticas com os homólogos dos países europeus do Sul, vítimas da hegemonia das elites do Norte. Não tem a gesta de liderar uma causa coerente que restitua a justiça social, porque não é isento de cumplicidades. Não tem utopias, não como fantasias irresponsáveis do irrealizável, mas como a visão fecunda do que está por realizar. Como dizia Henrique de Barros: “as utopias, essas loucas fantasias de hoje são as sensatas realidades de amanhã”.

As pessoas valem pelas ideias, convicções e acções e não pelos cargos institucionais que desempenham, apenas conotados a partidos e grupos de interesses. Delas, a História rapidamente se encarrega de apagar da memória, ficando apenas registos administrativos da sua passagem.

Sem a “utopia” de um voto útil no dia de votar - como um dos poucos actos de civismo participativo do cidadão comum, arredado e desiludido com as tramas partidárias que planeiam o assalto ao poder para dele tirarem proveito, em detrimento das promessas feitas ao dito cidadão pagador de todas as vilanagens e traído nas expectativas – continuaremos a assistir à “morte” da democracia.

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